Tuesday, 12 January 2010
Sem ar, dizes tu? Morreu como? Asfixiada nesta pobreza de espírito, sem eira nem beira, sem suporte nem... nada? Sento-me, cansada, os olhos a pesarem-me na cara, enquanto sinto o leve balanço da carruagem, que me leva a um estado de não sono, mas de profundo cansaço. Seria mais fácil morrer, deixar me ir, sem preocupações nem nervosismos. Simplesmente... dormir. Mas depois acordo, e olho para a senhora ao meu lado. Sorri-me, deseja me saúde. Como é que se perde alguém assim e se deseja saúde a desconhecidos no metro? Não sei, as vezes pondero se alguém lá em cima não me manda estas piadas de mau gosto, só para me testar a paciência.
Mas isso seria presunção e arrogância que alguém lá em cima quer saber de mim.
Então, acompanho o seu passo parado, enquanto ela me fala. Sorrio-lhe, mal ouço o que diz, fala baixo e para dentro, mas que mal tem sorrir-lhe? Olha-me, toca-me no ombro. O gesto não me assusta nem intimida, mas faz me sorrir ainda mais. As vezes, são raras, engraço com estes toques. Não são românticos ou sexuais, são humanos. Toques humanos. Da nossa, da minha pelo menos e da de alguns, de tocar noutra pessoa. Um choque. Uma colisão. Para nos relembrarmos que não morremos. Que ainda estamos aqui, presos na terra que o patrão lá em cima criou. Um espécie de post-it, para nos lembrar-mos que não, as pessoas a tua volta não são apenas nuvens, etereas e passageiras, como tantas vezes parecem. Entram e sai-em das carruagens, nunca mais as vejo. Não sei se os meus vizinhos são os mesmos todos os dias, vejo sempre mil e uma pessoas que nunca vi antes. Nunca as mesmas. Ou sou eu que vejo mal?
"Morreu a minha netinha, de dez anos, sem ar." diz me a senhora.
Fixo-a, e o mundo para. Que lhe vou dizer? Acabei de comentar que não foi ela que engordou, mas que foi o casaco que diminuiu. E agora digo-lhe o que? Uma frase bonita, tirada de uma cartão de papel das tabacarias, como "pelo menos está num sitio melhor"? Que raio de frase é essa?
A mim e a senhora que interessa que estejam num sitio melhor? Antes estarem cá, neste ninho nefasto e putrefacto, onde pudemos chorar ao seu ombro do que num sitio qualquer, a chorar pelas cinzas e carne podre e pelo seu ombro agora uma ideia abstracta e não uma realidade? Sou feita de carne! De vermelho, de tecido. Que me interessam os confortos escassos da alma, se é o corpo que me doí? Que me interessa?! De nada me servem ideias ocas, e de nada servem palavras vazias à senhora. Que lhe digo?
O momento passa, e sorri-me. Deseja me novamente saúde, e despacha a minha presença. Como quem diz que sabe que tenho outras coisas a fazer. Subo as escadas, um pouco atordoada, um pouco anestesiada pelo sono de estar acordada desde as quatro da manha. Não sei se pouco dormir é melhor que não dormir (sabes o que perdes). Mas olho para trás, e vejo-a, desajeitadamente subindo as escadas, com os seus óculos de avo de filme, redondos e com reflexos, o seu cabelo grisalho e fino, prateado e branco, encaracolado cuidadosamente em volta da sua cara, o seu casaco, demasiado pequeno, de cabedal preto, e sinto-me desfalecer. Vai para casa, para quem? Que casa? Pergunto-me se vive sozinha, se vive numa casa fria. Se mesmo que não viva sozinha, se se sente sozinha. O vómito enche-me a traqueia, e desvio os olhos no momento em que ela retorna a olhar para mim, com um sorriso curto de despedida e continuo a andar. Subo as escadas a correr, a fugir. A fugir daquela ideia, daquela mulher, velha, a morrer por dentro e por fora. Fujo do medo, do terror, do horrível da sua realidade. Mas eu posso fugir, ela não.
Será que se sente sozinha? Tremo. Chego a casa, deito-me mas não consigo dormir. Olhando o céu, penso. Que ideia de testes tens tu, ó Deus? Tiras e dás. Como viver sem aceitar que o que tu tiras assim tem que ser, ou seria louca. Louca por viver num mundo sem nexo, de for ao acaso, de ocorrências rotativas, como um totoloto da desgraça. Vai e vem, e em quem calha? O meu estomogo não assenta, mexe-se com vómito, sinto a cabeça pesada, dormente e cansada mas não consigo dormir. Porque? Porque viver?
Saturday, 9 January 2010
Sem noticias de Deus - i
Por volta da meia-noite, parecia que era a hora em que todas as pessoas que não queriam ser vistas iam as compras, porque por muito estranho que pareça que certas pessoas tenham comida em casa visto que nunca saem e nunca ninguém as vai levar a casa, esta não lá aparece por obra e graça do Espírito Santo, visto que este não existe. E se existisse, não lhe parece que estivesse muito preocupado com os seus hábitos alimentares. Lançando um olhar rápido ao casal, mas não casal romântico, na sala, deixou escapar um suspiro enquanto preparada os cafés. Tinha daquelas máquinas novas, bonitas e práticas. Excessivamente caras para um porcaria que expelia café, mas enfim, quem muito pode e pouco quer têm direito a certos luxos. Olhando em volta, o que restava da sua moralidade social sentiu um aperto, deixando-o indisposto. Não recebia visitas a algum tempo, e as que recebia eram amigos, ou pessoas, que conhecia a muito tempo. Por qualquer razão o facto de as conhecer de tal forma libertava-o das convenções sociais de arrumação e limpeza. Mas com os desconhecidos na sua sala, nojenta e que não via um aspirador desde que tinha sido comprada por ele, sentiu-se algo inútil. Desajeitadamente, levou os três cafés para a sala, sentando-se na sua poltrona. Observou as pessoas a sua frente.
A mulher não era bonita nem feia, nem atraente nem desinteressante. Tinha aquele ar de quem nunca nos lembramos do nome, ainda que a ou o vejamos todos os dias, durante anos. Olhos claros, cabelo soltos, uniformes e bem arranjados, sem qualquer traço de estilo ou um interesse afincado. Era arrumação simples e pura, não com o objectivo de se por bonita. Devia estar a sentir-se completamente descolada e enjoada com a sua casa, pensou ele, num misto de divertimento infantil e de culpa, leve mas existente. Tossiu, em jeito de começo. Sabia perfeitamente o que queriam, e eles sabiam perfeitamente que não o iam ter. Não vendia, não dava, nem emprestava nada do que fazia, nem para coisa nenhuma, nem para salvar os meninos de África. Pouco lhe interessava que chorassem, que lhe ameaçassem cortar o futuro, que lhe roubavam os quadros, que lhe tiravam a casa, que lhe matavam o gato, que o raptavam, que lhe envenenavam a água.
- Já lhes disse, umas boas mil vezes, que não vendo, diz ele, de forma agradável. Já está tão habituado a esta conversa que desistiu de ser rude e desagradável. Parecia que quando mais lhes batia, mais eles gostavam dele. Podia ser que se fosse querido e simpático que o rotulassem como bipolar e o deixassem em paz, de uma vez por todas, escapa-me o porque da insistência.
Mas as vezes a vontade de ser ruim escapa por entre as garras da moral.
O homem sem nome ou significado, tossiu por sua vez, e olhou em volta. Era, sem duvida, tudo que lhe tinham dito. Uma casa espaçosa, mas claustrofóbica, devido ao ambiente escuro e pouco iluminação. O por de sol de Lisboa, que tanto iluminava a cidade, no seu lusco-fusco resplandecente, era unicamente representado num dos vários quadros encostados a parede, como lixo velho, mas não entrava pela janela, naquela tarde de terça-feira. Olhando em volta, questionava-se como é que o homem a sua frente não saia de casa, em pânico e a dar em louco (se já não o era) de tanta escuridão. Mas não era calmo nem ingénuo ao ponto de achar que era apenas um reflexo algo romântico do lado negro de artista. Era uma escuridão calculada, talvez sendo que o desejo de manter todos fora e longe fosse um resultado da escuridão do pintor, cujo o nível era desconhecido, talvez até a ele próprio. A sala de entrada e de estar era composta unicamente por um sofá de quatro lugares, largo, podre de velho, de um tecido que em tempos havia sido vermelho e agora era uma mistura peculiar de vermelho escuro, preto, manchas castanhas e tinta. Havia variadas poltronas, sabe-se lá de onde e de que século, todas antigas, e arranjadas ao Deus de ara na sala, enorme e pintada de escuro. De decoração tinha meia dúzia de quadros, seus e de outros, nas paredes, e quadros, uma panóplia de quadros encostados por todo lado, por entre livros, e caixas, um leitor de vinil, uma televisão enorme, e um Xbox. Já nem os ermitas dispensam as novas tecnologias, ao que parecia.
Era uma casa algures em Lisboa, na parte velha e pouco segura. Toda a casa era antiga, a cair de podre, daquelas casas peculiares, agora divididas em apartamentos. Mas toda a casa era sua, herança de família ou sabe-se lá como, ainda que usa-se apenas o ultimo andar. Dos cinco andares, sem elevador, com as escadas em péssima condição, com pouco ou nenhuma luz em certos lugares, com as paredes a ruirem, a tinta a descolar-se e todo o ambiente sinistro de plantas a morrer e de portas trancadas a chave e quartos vazios, parecia que o dono da casa estava a fazer o seu melhor para desencorajar visitantes.
- Entendemos a sua posição, mas digamos que...
A voz do homem era entediante. Que tédio, oh que tédio. Bebendo o seu café, observava a boca, uniforme e fina, do dona da galeria, e sentia-se a deixar escorrer o mau estar e falta de paciência para com o tópico. Sentiu algo dentro do bolso vibrar. Sem pedir licença ou expressar alguma cordialidade formal, tirou o pequeno, gasto e feio telemóvel do bolso, e leu MÃE no ecran. Rangendo os dentes, rejeitou a chamada. Ainda não tinha ido as compras, e não lhe apetecia ter que se explicar aquela mulher e sessenta anos, louca e histérica, mais viva do que ele alguma vez fora.
Thursday, 7 January 2010
Não me olho ao espelho.
Paranóia. Não me olho ao espelho.
Apercebo-me que estou no ponto de partida. Onde ? Dizem-me que sim. Ponderei a hipótese de já ter terminado, ter dado uma volta imperfeitamente perfeita. Dizem-me que não.
A verdade assusta-me, essa cabra insensível, que me esfrega na cara, todos os dias, que ainda não saí do mesmo sítio. Observo a minha sombra. Percorre um circuito fechado que me rodeia e limita. Vejo-a com um sorriso trocista. Perturba-me. Não me olho ao espelho.
Ouço a mesma música repetidamente, incansavelmente, não porque a ame. Mas dizem-me que sim.
Noite. Na presença dessa exímia e sábia senhora, os meus pensamentos atormentam-me, fujo, para não chegar à conclusão de que sou miserável. Dizem-me que sim. Não me olho ao espelho.
Desejei que o tempo voltasse atrás, porém este não cedeu ao meu capricho. Parou. Dizem-me que não. Acordei de um sonho inconstante, com períodos de extrema lucidez e períodos de incessante angústia. Dizem-me que não. A verdade é que não durmo.
Dizem-me que sim.
Saí de um carrossel no sítio errado. Não, impossível. Só anda às voltas. Talvez não. Dizem-me que sim.
A incoerência da minha mente tem vindo a aumentar. Ninguém sabe. Tudo rodopia. Dizem-me que não. Vomito.
As caras são diferentes, desfocadas. Neste pedaço de cimento sou uma estranha. Dizem-me que sim.
A criança revolta-se.
Mas quem é que inventou isso? É tudo menos borboletas no estômago !
Porque é que ninguém a avisou?
Porque é que ninguém lhe disse que seria algo a corroer-lhe o peito?
Quais borboletas qual quê ?!
Mais 10 000 abelhas a esvaziarem-lhe os pulmões, como se o seu oxigénio de pólen se tratasse.
Um poço mental sem fundo.
Borboletas ?! Pfff..
Não sais, não te mexes. Sempre nesse teu lugar, quente e pegajoso, sempre ai. Sentas-te confortavelmente e observas-me, todo o dia, a toda a hora, constantemente. A tua precensa, silenciosa e quase como Deus, omnipresente, incomoda-me. Engulo a seco, e pondero, sentada eu própria, nas cadeiras da cidade. Penso em falar, dizer qualquer coisa. Sinais de vida quaisquer. Não mensagens típicas da época, não tenho paciência para formalidades, já me devias conhecer melhor. Mas, enfim, eu conheço-te a ti. E sei que vives da imagem de normalidade que fomentas. Fomentas essa ideia de formalidade estática, com os teus maneirismos calculados e previstos. Com manias da perfeição. Dobras tudo bem dobrado, arrumas tudo sempre no sitio, dizes sempre as coisas certas. Não as melhores, as com mais significado, apenas as mais formais, as mais típicas. O mais genérico sem ser demasiado genérico, ou seja, as mais falsas das palavras humanitárias e carinhosas. Não! Já te disse que não te quero assim. Não te quero com a formalidade que tanto me irrita. Não te quero de forma alguma, mas não consigo não te querer. Dás me eternas dores de cabeça.
Podia falar. Podia. Podia mas não quero. Não quero porque não tenho que te dizer. Não tenho que te dizer que não seja formal ou que não seja incómodo.
"Hum...what would you like to drink?" Asked the waitress, as I stared blankly at the napkin I was talking to for over an hour. It's not like there was anyone else to talk to, and the salt was already bored with me.
-- 2005
It happened
What happened?
- To the eyes of others, nothing.
- To the girl, it happened.
In a plain movement of reaching something the boy held the girl's hand. He held it for merely 2 seconds. Those same precise and real 2 seconds, felt like an eternity for whom whose hand was being held.- the girl - In a split second, she felt the unknown eternity in a touch. Poor, unwise girl, remembers nothing but the touch. She saw the boy's mouth moving in a way of producing sounds however she did not listen. Why should her? It was irrelevant. He could have not held her hand but he did.
His hand was neither cold or warm, it didn't matter anyway. It happened, the perfect touch. The simple touch of two naked hands, which so often and commonly occurs.
It happened, and then she knew. Yes, the little girl just knew.
She knew she had to have him. No, she knew she would have him.
When ? Who cares ?! The when seemed unimportant when she knew it would happen.
- Silly, uh?
She had already touched that boy before. A kiss, a hug, a gentle bump, however it wasn't it. And those peculiar 2 seconds were it. It happened, and now she knows. How? Once again, unimportant..
Stupid, uh?
It happened.
Wednesday, 6 January 2010
Não. Diz lá isso com uma onomatopeia. Ai, sim, estamos a falar bem.
Comboio. 14 horas e 53 minutos.
Olha à volta.
Família à esquerda. Vai de costas. Rapazito insuportável à frente. Avós despreocupados. Rapariga chata.
Casal idoso em frente. Senhor ao lado.
Senhores ocupados a preencher os seus livrinhos de jogos de viagem.
Apercebe-se que o senhor é filho do outro senhor.
Observa a paisagem. Esboça um sorriso. Imagina o comboio vazio. Silêncio. Fecha os olhos e sorri. Esta imagem anima-a. Paisagem novamente.
Imagina o que estarão as pessoas a pensar. Algo que costuma fazer.
O senhor a seu lado mastiga a sua chiclete freneticamente.
Lembra-se, momentaneamente, da música dos Táxi. Entoa-a, baixinho.
Começa a nutrir ódio pelo rapaz irrequieto e incansável.
Observa a família. Uma como tantas outras. Demasiado comum e normal a seu ver. Pai a ler jornal. Filho jovem a dormir. Mãe a ler revista de culinária. E filha, novinha, a desenhar.
Estranhamente felizes.
Imagina-os na sua cozinha. A ter uma refeição como as inúmeras outras que certamente já tiveram.
Pára. Lança um olhar quase homicida ao miúdo que não se cala.
De volta à família. Vê-os - como se fosse uma sombra - confortavelmente na sua sala à volta da (lareira? não.) televisão. (Infelizmente).
Pára.
Fica estática por alguns momentos.
Vê o puto no chão. Deseja que ele tivesse caído. Sente-se observada. A senhora olha-a discretamente enquanto esta escrevinha num molho de folhas amarrotadas.
Pára. Murmura algo de uma música que ouve. Pensa como seria viver na altura em que a banda, que escuta apaixonadamente, existiu.
Bate o pé.
Não tem sido um dia produtivo.
Sente o Sol a bater-lhe na cara. Sensação de conforto.
Sente o braço dormente, a mão cansada e os dedos a doer.
Pára.
-
Recomeça.
A palavra L E T A R G I A R , do tal livrinho de jogos, consome-a. Sente que já não dorme há dias.
O filho acordou, adormeceu. O pai parou. A mãe fechou os olhos. A filha morreu.
Oh, afinal não. Chamou a mãe e levantaram-se.
Odeia viajar de costas. Banal, ela sabe.
O pseudo-projecto-de-pessoa vai contra ela. Lentamente levanta a cabeça. Fica com uma expressão um pouco psicótica. Como se a qualquer momento se levantasse e extinguisse aquele acumulado de tecidos orgânicos. Exagerado, uh?
Reprime a veia sádica. E, apenas se arrepende de não ter esticado a perna. Só ligeiramente. De forma a fazê-lo cair. Gentilmente. Ou só tropeçar.
Túnel.
O Sol desapareceu.
Frio.
Fim da folha. Música envolvente.
Pára.
Tuesday, 5 January 2010
Olha, almas.
Admito que me entrego a devaneios mais vezes do que não. Pudera, vida singela. Sem graça, sem pó de arroz que anime a sua face podre. É podre! É! Eu vejo-a, a cair de estragada, amolgada pelas noites acordada, sem dormir e sem sonhar. Não sonha, não vive. E se não vive, apodrece. Cai, pouco a pouco, perdendo primeiro a cor. Perde as cores avermelhadas e esbranquiçadas de rosto. Perde a pele e os poros. Estes secam e fecham-se, envergonhados. E depois, a pouco e pouco, devagarinho, com um cheiro forte a estragado, aquele cheiro de casa solitária, cheia de mundos e ideias vazias (o que será que lá acontece quando não está lá ninguém?), que não é limpa, nem amada, começa a descair. Lentamente, devagar e vagarosamente a pele começa a enrugar, qual cadáver seco e putrefacto, que se arrasta da campa e me assombra, e vai caindo, em jeito de filme, deixando a carne seca e amarela de pus, que náusear profundo, e eu olho a pele, e encolho-me num misto de admiração e vómitos. Olhem bem! Olhem! Olhem! Olhem, que todos adoram um bom susto. Uma boa sensação de nojo que percorra o estômago e a pele, que nos deixe excitados, corados de enjoo. Nem andar de barco nos deixa assim. Sim, porque existem diversos tipos de repugnância. Existe aquela leve, que provoca um leve ar sarcástico e um pouco sisudo. E depois há aquele nojo que a minha pele (que lentamente cai e apodrece no espelho) me provoca a ti e a mim. Aquele nojo que vem das entranhas, aquele nojo de sangue e suor com cheiro a prazo expirado. Ai, como nos consome aquele nojo. Tudo em ti se revolta, ai, como gritas. Mas como posso eu gritar, se a minha pele cai, lentamente, escorrendo devagar pelo meu corpo, em direcção ao céu, deixando um rasto de infectado, de negro e amarelo infectado qual doença contagiosa... A falta de alma contagia?
Monday, 4 January 2010
Que faço, que faço?
Todos os dias ando de metro, e todos os dias algo interessante acontece. Pode ser a mais ínfima coisa, o mais menor dos detalhes. Mas está lá. Quando uma criança se ri, maravilhada, com a sua mochila e as suas pequeninas bolachas. Quando uma menina corre, sorrindo quase em jeito de desculpa, para apanhar o metro. Quando um casal se senta junto, e fala. Não são momentos heróicos, nem particularmente grandiosos. São só ocorrências humanas, nano-segundos de emoção. Um faísca, uma colisão.
Faz-me sorrir.
Pondero se só eu os vejo. Quando de manhã vou no metro, olho em volta para as caras fechadas, nem bonitas, nem feias, mas fechadas e de olhos baços. Penso, pergunto e questiono-me silenciosamente se é do sono. Ou se estão a dormir, mesmo por dentro. Apagados, sem luzes (brancas, ou de natal, psicadélicas, seja o que for). Olhos desligados e desapegados. E depois, olho para o meu reflexo, ajeito o cabelo, mas olho-me nos olhos (que experiência tão aterradora) e experimento. Estão baços também?
É por isto, este exercício matinal, filosófico até, que gosto do metro. Quem é que, para além de mim, se interroga da sua existência? Ouvir a mente dos outros havia de ser uma boa dor de cabeça, dentro de uma caixa de metal, subterrânea e a andar a alta velocidade. Que silêncio confortável.
E de vez em quando, um sorriso amigável. Será que me lêem os pensamentos?
Ao longo do tempo vamos experimentando coisas que nunca sonhamos. Aprendemos que todos os actos tem consequências, que cada palavra dita pode ser usada contra nos.
Aprendemos que nem sempre a coisa certa chega na hora certa, e que não podemos agradar a todos.
Que por muito que doa ter o coração partido, o mundo não espera por nos,
Aprendemos a escolher, não entre o certo e o errado, mas entre o coração e a mentem i bom e o mau, e muitas vezes entre nos e os outros.
Aprendemos que por muito que doa, por muito que seja mau, o sol vai continuar a nascer, e que lá fora ninguem quer saber e que no fim, de uma maneira ou de outra, as coisas acabam, bem ou mal."
Reflectes nas palavras que escreveste com quinze anos, e sentas-te, com um sorriso amargo de maturidade indefinida, de quem já sabe isto de cor e salteado. Ás vezes, tal como toda gente, esqueces-te que já, um dia, foste um pobre bezerro, arrastado pelas correntes a tua volta. E que, com o tempo, começaste a criar sistema de defesa, formas de combate, projectos de luta e métodos de deixar de te sentires tão indefeso perante aquilo que te parece inevitável. Convences-te que ao cresceres te tornas-te algo invencível, dentro do teu espaço pessoal. Olhas-te ao espelho, e sorris. Sorris. Achas que acredito neste sorriso? Porque por dentro, continuo a ver o coração que grita. Grita perdido, os sons a serem abafados por toda essa tua segurança, que estala a cada segundo, com cada momento perdido e mal aproveitado. Estala, oh como ele estala. E todas as correntes de emoção, todos aqueles gritos inconformados, não poéticos, pouco profundos e ponderados espalham-se sobre ti, esmagando e sujando toda a tua bonita imagem. A perfeita imagem que tens vindo a criar para ti. De uma segurança estável. Estável? O que é isso? Lembra-te daquilo que eras com quinze anos, quando um dia olhas-te em volta e apercebes-te que se calhar aquele mundo de fantasia não era segurança nenhuma, mas apenas mais um espelho, que se reduzia a cinzas, queimadas por todos aqueles que não querem saber de ti. Pronto, magoei-te agora? Dói sentir, não dói? É disso que te tens que lembrar. De sentir. Sente, sente pelo corpo todo, pela alma e pelo o espírito. Sente de forma a que quando deixares de sentir, foste mais além daquilo que os outros foram. Sentiste com alma e coração. Que mais podes querer desta vida insípida?
A vida dói a toda gente. Dói tanto que arranca, bocadinho a bocadinho, pedaços da gente.
Bocadinho a bocadinho, que já nem se sente. Arranca sem pudor, com ódio piedoso.
Já nem se sente até sentires tudo de uma vez, até que o ar já não é respirável, o oxigénio esgota-se para ti. Até que a água já não é potável, já não podes beber porque foge da tua boca, e parece que passaste uma eternidade à seca.
E como te atreves, tu a mascarar a crueldade com a dor?
Dor não é desculpa!
Dor é motivo, consequência, culpa e fardo. Mas não desculpa!
Dor de ver, de sentir, de causar, de chorar.
Pois então, morre. Que me cansas.
Morre! Morre para o mundo, porque, sinceramente, o mundo já morreu para ti.
Com essa insensibilidade cheia de certezas, de pretos e brancos e nenhum cinzento. Cinzento é... duvida, cor, amor, ódio, paixão. Cinzento é a verdadeira dor do amor apaixonado, ou amor louco, entregue, cúmplice, confiado e da necessidade de ter. Porque o cinzento é a duvida. Duvida de amar, pois o contrário verifica-se. Amar, amar incondicionalmente é duvidar.
Duvidar de si, dos outros, do mundo, ao passado, do presente, do futuro, do "nós" fugidio e inconstante.
E, logo, cinzento é dor.
É a dor profunda da mistura. De não ser branco, nem ser preto. De não existir definitivamente, apenas... existir.
E tu, que nem és preto nem branco, mas não és cinzento, pois és a escuridão e a luz num só, mas nada entre o meio, és tudo aquilo que resulta da dor sem realmente sentires.
Então, morre.
Morre para o mundo. Que ele morreu para ti.
Não entendo as pessoas, e às vezes pondero as minhas hipóteses de alguma vez vir a sequer começar a entender porque é que as pessoas são tão incrivelmente estúpidas. Não sei. Se calhar eu é que sou muito limitada e tenho um campo de visão muito pouco amplo, não sei, pode ser isso. Pode ser que eu é que não veja as coisas como deve ser, se calhar eu é que ando tapada, com falta de óculos, qualquer merda metafórica que queiram pensar. Pode ser que sim. Mas sinceramente, quando me sento e olho bem para as pessoas a minha volta dá-me um vontade intensa de agarrar na cabeça de algumas pessoas, e muito pouco gentilmente esfregá-las contra as paredes. Com mesmo muitíssima pouca gentileza. Não porque não gosto delas. Mais pelo contrário, pelo oposto. Porque gosto muito delas. E como gosto delas, elas enervam-me. É um fenómeno muito peculiar mas parece que o quanto mais eu gosto de uma pessoa, mais ela me irrita. E quanto mais as pessoas me irritam, mais eu gosto delas. A sério, também, acho que sou muito estúpida, por isso não faz mal chamarem-me de hipócrita, que eu não me vou importar.
Mas ao fim ao cabo, porque é que as pessoas são estúpidas, pode alguém que leia isto perguntar-se. São estúpidas porquê? Mas porque raio é que tu andas para aí a chamar os outros, coitadinhos, de parvos? Sua malvada, credo, és mesmo indecente. E eu, na minha maneira querida de responder, digo-vos porque...
As pessoas são estúpidas porque são cegas. São estúpidas porque são loucas e privadas de sensibilidade social. São estúpidas porque são do pior tipo de cego. Dos cegos que simplesmente não querem ver. São cegas. Atrasadas, retardadas e paradas no tempo, tudo em simultâneo. E oh meu deus, que vontade de lhes bater que me dá. Eu sou pacifista, muito hippie, no fundo mas mesmo no fundo do coração, mas se as pessoas estúpidas deste mundo simplesmente parassem de sair à rua, e passassem todas a ser agorafóbicas, a sério, eu morria feliz. Eu mudava-me para a China, criava crianças abandonadas pelo governo e abria uma loja de coca-colas, qualquer coisa assim. Era uma pessoa realizada.
Cambada de gente estúpida.
Sempre achei doidos interessantes. Sempre vi um certo humor (vá, distorcido) na forma como vêem o mundo. E pergunto-me como é que o que se passa a frente deles lhes parece. Se vêem as cores de outra cor, se vêem o céu mais ou menos azul do que eu, ou outra pessoal qualquer. O que os torna dementes e a mim não?
Não sei, sinceramente, não faço a menor, a mais mínima, a mais pequena ideia. Não sei e não se entende. Chamem-me doida mas sempre quis ser demente. Ou considerada como tal. Não posso explicar porque, também porque não quero, mas sempre o quis. Acho a vida e o mundo tão incrivelmente desinteressantes que suponho que ser lunático deve ter o seu charme. Nada é o que é, e tudo nos faz ou extremamente felizes ou extremamente zangados. Não existem coisas como intermédios depressivos ou pausas de lentidão emocionalmente frustrantes. Tudo é extremo, tudo vai do oito ao oitenta, e tudo é vivido, numa exaustão emocional contínua e profunda. Ou seja, tudo é simples. E se tudo é simples, nada é complicado. E eu não gosto de complicações. Deixam-me fora de mim. Mas enfim. Não entendo o medo da loucura. Somos todos meio loucos, no fundo, admiro aqueles que por alguma falta de travão social o deixam mostrar. Excêntricos, chamem-lhe o que quiserem. Ao menos os filhos da puta são interessantes.
Farta do negro que não vê no interior das suas pálpebras, abre os olhos, mas continua a ignorar o resto dos passageiros, olhando o que se passa lá fora. Nunca é capaz de dormir por muito tempo num carro. Invariavelmente, por muito cansada que esteja, por muito farta, irá abrir os olhos e observar com uma maravilha digna de uma criança que nunca saiu de casa tudo o que se passa à sua volta. Tudo a fascina, mesmo que isso a envergonhe. Nada é igual, parece que a beleza é circundante mas não central, pelo menos para ela. Tudo é belo à sua volta, por dentro tudo é escuridão.
theatrics doesn’t attract me -
call me old fashion but tradition doesn’t scare me.
it doesn’t scare but it doesn’t appeal either,
so i don’t know what i’m after, really.
you know, it was broken and mended but
the cracks don’t fade away.
it beats all the same but the beat seems too hard
to be soft sometimes and easy in some ways.
it struggles through the pressure but darling,
it doesn’t seem to mind.
it has a sense of humour, this heart of mine.
the expression of depression, my, it has never
bothered me! the theatrics and the antics of the
actors in the hustle of emotion never seem to affect me.
much do i prefer the peace in quiet of the chaos
inside of me, inside of us, inside of you.
chaos? chaos, you could say, or in some ways,
the desperate anarchy of feelings -
raging, raving, this rumbling ruckus that we feel.
stony, we feel.
I admit that... I am a spiritualist. I believe in the good of people, or I tend to believe that everyone is capable of good, even the worst of men and women. I believe in things beyond our eyes can see and beyond our physical grasp. Tell me you've seen a ghost, I'll interestedly listen. Tell me of old stories and tales of the beyond and of the old, I will happily sit for hours and talk. Philosophy, literature, horror, fantasy. I have the most natural of tendencies for all that is far-fetched, imaginative and creative. But tell me you've known of a love that last forever, and I will sympathetically smile at you, as I sceptically tell you that I'm no love fan. Not even a fan of love song, not even a fan of romance. I'm just not. Now, granted this doesn't make me the best of lovers, as I tend to shriek and hide whenever we move past physical, and get emotional. Emotions? They're fine. I really do find them interesting. I love to find what makes you tick and shout, what makes you happy, sad, pouting, yelling. I love emotions almost as much as I love causing situations that triggers them, but that's the cruel side of me jumping in. But I don't understand... that feeling of butterflies in your stomach. The weak knees, the flabby legs, the way you seem to change, shift on the inside. That warm, gripping hold over your heart, as the coldness you didn't know was there begins to disappear, being replaced by this oddly filling feeling of... peace.
Sunday, 3 January 2010
Numa noite como outra quaquer, uma rapariga como outra qualquer.
Saber que a casa lhe pertencia, porque todos os outros se encontravam profundamente perdidos no desconhecido domínio dos sonhos trazia-lhe conforto.
Estava frio. Munida de uma manta laranja, não, quase laranja, dirigiu-se à sua casa-de-banho (sua, Isabel apreciava em particular este pronome possessivo) para saciar o seu ordinário e nojento hábito.
De armas em punho, abriu a janela cuidadosamente, para se suicidar uma vez mais. Pegou no pequeno instrumento que dá fogo e acendeu mais um daqueles frágeis e poderosos paus. Não mais um, mas sim o último, o derradeiro.
Na quietude da noite, Isabel devorou contidamente aquela dose de veneno em forma de cilindro. Numa noite como outra qualquer, não era aspirar o fumo que lhe trazia satisfação, mas sim, ouvir o som do papel queimar enquanto o fazia. Aquele crepitante e delicioso som mediante o silêncio ensurdecedor, daquela noite, noite como outra qualquer, trazia-lhe sossego. Olhou para o lado e viu a sombra das suas pestanas, sorriu, em paz.
Isabel era uma rapariga como outra qualquer, acenava a cabeça quando não prestava atenção, enrolava o cabelo quando estava distraída. Adorava andar num comboio vazio, como que fantasma, e vivia no seu próprio mundo como outro qualquer adolescente.
Não gostava de insónias porém tinha-as frequentemente. Simplesmente não dormia.
E naquela noite, uma noite como outra qualquer, mais uma noite em que não dormia, Isabel, uma rapariga como outra qualquer, desistiu. Deixou-se ir, naquela noite fria de Dezembro, Isabel sucumbiu.
Seria encontrada na manhã seguinte, manhã diferente de outra qualquer, deitada no chão, com um perturbador sorriso mórbido nos lábios. Isabel finalmente adormecera.
Nunca se soube a causa de tal (in)feliz acontecimento.
Mas foi uma noite, como tantas outras, uma noite como outra qualquer, a noite em que Isabel morreu.