Thursday, 25 March 2010

A necessidade de tudo saber e de nada deixar por dizer cria uma espécie de vazio rotineiro na vida das pessoas que não controlam as suas excessividades. Não é um vazio sem sentido, algo que vem de repente e de rajada (como o vento frio do Inverno), mas um vazio preenchido por silêncios longos e desconfortáveis, quando já quase tudo o que havia a dizer naquele espaço de tempo, foi dito. Quantos mais penso nisso, mais concordo comigo mesma. As pessoas foram feitas com temporizadores, não consigo não acreditar nisso. Nem duvidar, sequer. Fomos todos criados com tabelas periódicas, que biologicamente entranham na nossa mente os nossos horários pessoais, os nossos intervalos e em que condições podemos escaparmos-nos de uma ou outra sessão mais penosa e longa. Os nossos pequenos botões(pontos fracos, quiçá). Como todas as escapadelas do convencional, estas criam lacunas, um ou outro vórtex inconstante, onde ou o barco afunda ou resiste. Quando o interesse desaparece, tudo foge...

Monday, 22 March 2010

Quem espera, desespera. Não sei se a ideia é exclusivamente portuguesa, mas vou arriscar e dizer que sim. Que sentimento tão malvado, que sentir do corpo tão cruel... O de esperar, não ver e não querer ver, apenas sofrer pelo que não vem. E as palavras? Deus! Ai essas, que rasgam sem tocar e que tudo tornam em seja o que for que queres que eu sinta. Indecisão, é crónica, mas esse mal é de família, já dizia o meu tio. E lá vão eles... em fila indiana, certinhos e arrumados, que andam e andam...

Sentimento de quem se sente deslocado, e quem não sabe o que diz. Não apenas consoante aquilo que se possa pensar, mas sobre tudo. É um estar deslocado, indefeso e inconstante em todas as constantes necessárias. Que segurança? Essa não existe, nunca a vi. Nunca a vi chegar, por isso não sei se alguma vez partiu. Aperta, desaperta, e como bate, desenfreado, com o arfar de quem mal consegue chegar aonde nem devia estar, quanto menos aonde devia.

Tuesday, 2 March 2010

a short drop and a sudden stop

Giro e giro e giro e giro mais uma vez. Giro os dedos em volta do tecido, enrugando, alisando e voltando a alisar o tecido que não estava em muita necessidade de ser alisado, mas a quem é que isso interessa? Fico nervosa, e com vergonha (tão pouco típico, tão pouco típico!) e numa tentativa de expulsar algumas palavras, que formam sempre perguntas (eu gosto de fazer perguntas), levanto os olhos do chão ou desvio-os das paredes e pergunto qualquer coisa banal, enquanto lanço novamente os olhos na direcção de um tudo nada que me distraia da pessoa a quem fiz a pergunta. Pareço uma criança, sorrio e deixo-a pensar que sou apenas idiota. Gostava de lhe dizer que sou nada idiota mas muito atrapalhada. Faz alguma diferença. Gaguejando, vou sorrindo sem saber o que dizer. É reflexo, um a vontade sem vontade, sorrindo para tudo e para nada, não percebo bem. Passo a língua pelos dentes, pelo céu da boca, e mordisco os lábios. É fácil ver se estou preocupada ou tímida. Alias, sou um livro aberto quando me conhecem, logo, escusam de o fazer. Mordo o canto da boca, passo a mão pela testa, coço a sobrancelha e o lado da cara. As caras, novas e desconhecidas, não familiares, não me causam deja vus, nunca as vi na rua. Eu cá não reconheço ninguém e ninguém me parece reconhecer. Fico sempre sem saber se isso é uma coisa boa ou má. Passando as mãos na calçada, questiono-me. A corrente de perguntas, de duvidas, de comentários e de ideias vai enchendo e enchendo o meu interior, até que parece que é tarde de mais, e são demasiadas perguntas. Quero saber tudo, a toda a hora, de todas as formas, com todos os pontos de vista. Mas sou lenta de mais para tentar. E depois fico frustrada. E ressinto-me. E não quero isso.

Olho-o nos olhos. Ele olha-me sem rodeios. Encara me cara a cara, com olhos que nem me desafiam, nem me intimidam mas que me estudam. Não se devia cair no erro ou na ideia de que ele sabe que estou ali à tentativa. Não sei nada de fome nem de miséria. O pouco que sei de nada me serve ali, enquanto me fazem rir com piadas obscenas ("sabe o que é que quer dizer obsceno?"). Tem um barrete azul. Notei logo o barrete azul. Tenho fome e tenho frio. Mas enquanto vou ouvindo história da moça do Pingo Doce na Quinta das Conchas, vou pasmando para as pessoas a minha volta (desliga, desliga, desliga, desliga). Pequenos, altos, magros, gordos, feios, bonitos... Misturam-se todos, e vou-me entretendo a criar-lhes histórias. Quais são órfãos, uns pequenos e enfadonhos Olivers? E quais são, sem ninguém saber, prostitutas, ou vendem droga? Claro que o meu panorama enche-se de dramas e de coisas que me interessam. Sentir sempre, de todas as formas, já dizia o outro. Sei que é de brandar aos céus e de me chamar de louca, mas viver na pele dele, do Fernando, por dois dias deve ser interessante. Diz que não toma banho a quatro meses, que quem toma banho são os porcos. Já sem metade dos dentes, os que restam são algo entre o amarelo e o preto, muito coloridos, certamente interessantes e pouco higiénicos. Sem pedir aprovação, lança uma corrente de piadas, revira o olhos, nega e afirma, tudo diz e nada quer, só fala, não come, e entretêm-se com advinhas. Achei-lhe piada.

O que nos leva a ir viver para a rua, pergunto-me. Diz me uma na roda que acha fantástico que tenha encontrado um homem inteligente entre eles. Honestamente, acho que de fantástico isso não tem nada. Só os iluminados é que desistem de viver com os outros, só pode...