Giro e giro e giro e giro mais uma vez. Giro os dedos em volta do tecido, enrugando, alisando e voltando a alisar o tecido que não estava em muita necessidade de ser alisado, mas a quem é que isso interessa? Fico nervosa, e com vergonha (tão pouco típico, tão pouco típico!) e numa tentativa de expulsar algumas palavras, que formam sempre perguntas (eu gosto de fazer perguntas), levanto os olhos do chão ou desvio-os das paredes e pergunto qualquer coisa banal, enquanto lanço novamente os olhos na direcção de um tudo nada que me distraia da pessoa a quem fiz a pergunta. Pareço uma criança, sorrio e deixo-a pensar que sou apenas idiota. Gostava de lhe dizer que sou nada idiota mas muito atrapalhada. Faz alguma diferença. Gaguejando, vou sorrindo sem saber o que dizer. É reflexo, um a vontade sem vontade, sorrindo para tudo e para nada, não percebo bem. Passo a língua pelos dentes, pelo céu da boca, e mordisco os lábios. É fácil ver se estou preocupada ou tímida. Alias, sou um livro aberto quando me conhecem, logo, escusam de o fazer. Mordo o canto da boca, passo a mão pela testa, coço a sobrancelha e o lado da cara. As caras, novas e desconhecidas, não familiares, não me causam deja vus, nunca as vi na rua. Eu cá não reconheço ninguém e ninguém me parece reconhecer. Fico sempre sem saber se isso é uma coisa boa ou má. Passando as mãos na calçada, questiono-me. A corrente de perguntas, de duvidas, de comentários e de ideias vai enchendo e enchendo o meu interior, até que parece que é tarde de mais, e são demasiadas perguntas. Quero saber tudo, a toda a hora, de todas as formas, com todos os pontos de vista. Mas sou lenta de mais para tentar. E depois fico frustrada. E ressinto-me. E não quero isso.
Olho-o nos olhos. Ele olha-me sem rodeios. Encara me cara a cara, com olhos que nem me desafiam, nem me intimidam mas que me estudam. Não se devia cair no erro ou na ideia de que ele sabe que estou ali à tentativa. Não sei nada de fome nem de miséria. O pouco que sei de nada me serve ali, enquanto me fazem rir com piadas obscenas ("sabe o que é que quer dizer obsceno?"). Tem um barrete azul. Notei logo o barrete azul. Tenho fome e tenho frio. Mas enquanto vou ouvindo história da moça do Pingo Doce na Quinta das Conchas, vou pasmando para as pessoas a minha volta (desliga, desliga, desliga, desliga). Pequenos, altos, magros, gordos, feios, bonitos... Misturam-se todos, e vou-me entretendo a criar-lhes histórias. Quais são órfãos, uns pequenos e enfadonhos Olivers? E quais são, sem ninguém saber, prostitutas, ou vendem droga? Claro que o meu panorama enche-se de dramas e de coisas que me interessam. Sentir sempre, de todas as formas, já dizia o outro. Sei que é de brandar aos céus e de me chamar de louca, mas viver na pele dele, do Fernando, por dois dias deve ser interessante. Diz que não toma banho a quatro meses, que quem toma banho são os porcos. Já sem metade dos dentes, os que restam são algo entre o amarelo e o preto, muito coloridos, certamente interessantes e pouco higiénicos. Sem pedir aprovação, lança uma corrente de piadas, revira o olhos, nega e afirma, tudo diz e nada quer, só fala, não come, e entretêm-se com advinhas. Achei-lhe piada.
O que nos leva a ir viver para a rua, pergunto-me. Diz me uma na roda que acha fantástico que tenha encontrado um homem inteligente entre eles. Honestamente, acho que de fantástico isso não tem nada. Só os iluminados é que desistem de viver com os outros, só pode...
Tuesday, 2 March 2010
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