Sentiu o estalar dos seus dedos, esperando um segundo antes de voltar a passar a sua ponta pela ranhura da chave. Empurrando levemente a fechadura, sentiu a madeira da porta estalar e o ruído seco da mola trancada a bater contra a madeira. Não percebia muito de fechaduras, realmente não eram um tópico que lhe soasse assim muito interessante, mas desde a algum tempo que investia numa fechadura eficaz. Concentrava-se na fechadura com uma atenção impressionante para quem quer que por lá passasse (ninguém iria lá passar visto que ele vivia no quinto andar de uma casa, numa ponta remota e quieta de Lisboa, sem mais ninguém no largo apartamento que lá passasse) iria achar quase desconcertante a forma como teimava em ignorar o que se passava à sua volta. Estava no lado de fora do quinto andar, a trancar as portas para o seu apartamento. Bem, tudo aquilo era a sua casa, mas o quinto andar era o seu apartamento. Atrás de si havia outra porta que dava directamente para uma ala do apartamento que ele utilizava como a sala de não ter nada, ou seja, não acontecia lá nada, não havia lá nada, nem era necessária para coisa nenhuma, mas existia, e de certa forma, isso era confortável. Só tinha reparado o quanto gostava dela assim quando a mãe haveria insistido em trazer-lhe as ultimas caixas de coisas suas que tinha na sua casa de infância, coisas que ele já não via ás séculos e que não lembrava a ninguém ainda ter, mas lá ela lhas tinha trazido e enfiado no sala de não ter nada. Quanto tinha chegado a casa, e a tinha visto sentada no meio a espaçosa sala, espaçosa pelo menos para cima, sendo que era dos quartos mais pequenos do apartamento, sentiu um calor nas entranhas que o obrigou a esperar aquele dez segundos, enquanto contava de dez a um, numa espécie de hipnose auto-imposta. Claro que uma tentativa calma de explicar o porque de não querer nada lá tinha falhado ("És louco, só podes ser louco! Onde já se viu uma sala de não ter nada, tens é tempo demais para não fazeres nada, é o que é! Se trabalhasses, não eras tão idiota!") e logo tinha passado, no seu jeito amigável, para ignorar a mãe, e arrastar a tralha para o corredor, e prossegui ignorando os protestos da progenitora quando a pós fora de casa, descendo os cinco andares, e lhe retirou a chave das mãos, diplomaticamente dizendo-lhe que estava desconvidada a servir-se da sua casa como sua. Não que a sua mãe alguma vez tenha estado mesmo convidada para tal fazer, mas não interessava, o convite formal havia sido desfeito.
Não o incomodou as três semanas sem uma palavra ou um bip no telemóvel. Alias, foram três óptimas semanas, de descanso. Não queria saber de ninguém. Não era uma pessoa agradável, ainda que continuasse a ser uma pessoa. Mas, enfim. Finalmente, a terceira fez que sentiu o som seco da mola, relaxou e virou-se para as escadas, para as descer. Numa mão uma meia dúzia de sacos de plástico (amigo do ambiente) e na outra, as chaves do apartamento que iam sendo postas no bolso. Desceu ruidosamente, mas não havia mais ninguém para ouvir o seu ruído, por isso era como se não existisse, e passou pelos restantes andares sem notar a diferença. O seu ainda tinha um ar de habitável, a janela estava iluminada pela luz do candeeiro de rua, e tinha uma planta que a mãe insistia em manter viva, mesmo que através de exigencias e chantagens pelo telefone. Os outros andares? Estes estavam fechados, as cortinas puxadas, e a escuridão era imensa, e a luz vinha sabe-se lá de onde. Desceu, desceu, desceu. As escadas em caracol quase, com o som da madeira a guinchar e protestar debaixo do seu peso, não muito considerável, a medida que evitava os sítios partidos com um a vontade de quem muito sobe e desce, mais de memoria do que de pratica. Tinha lá vivido em pequeno, e coisas dessas não se esquecem.
Chegou ao ultimo andar, e sem dar a si próprio a hipóteses de desistir (estava farto de comer sardinha em lata), saiu à rua, e batendo a porta atrás de si, imaginado o eco de silencio que se teria feito dentro da enorme e vazia casa. No cimo das pequenas escadas que davam para o portão, olhou em volta. Do outro lado da rua, uma senhora idosa caminhava com um rapaz muito, mesmo muito mais novo. Considerou se seria o neto, mas parecia que a modernidade das coisas até a ele já o afectavam, e ponderou se não seria um rapaz novo a abusar da bondade e necessidade de uma idosa. Feia como era, de lábios pintados de cor-de-laranja avermelhado (mas que cores de batons fazem, meu Deus...), com o seu cabelo branco amarelado, talvez de falta de água ou excesso dela que o tinha enferrujado como um pedaço de metal usado a demasiado tempo, e apertava a mão do rapaz como que se da sua vida dependesse o quão forte era o aperto. O rapaz, nem lhe via a cara, na escuridão do começo de noite, mas parecia lhe apenas mais um rapaz, igual a tantos outros, alto, de cabelo curto e com um ar moderno e indiferente a tantos outros. O ar estava um pouco frio, daquele frio que ataca o interior dos pulmões. Um ar gélido de noite. Esfregando a barba, desce os degraus e inicia o caminho que já faz sem pensar nisso. Vai todo o caminho sentido o gelo da noite em volta do corpo. Não leva roupa particularmente quente, apenas uma t-shirt e um casaco fino, que mais o arrefece do que aquece, quando lhe toca na pele. Vai com as mãos nos bolsos, sentido a sua pulsação, sem nenhum pensamento em concreto, com a mente lisa, e vazia, cheia de varias coisas e de nada, como muitas vezes nos todos nos encontramos pelo dia fora, naqueles momentos em que se tentamos pensar naquilo que nos ocorria na altura, não nos conseguimos lembrar, porque mesmo que fosse algo de importante, único e perfeito, para nos aquele momento não passou de algo fugaz e pouco importante.
Acordou do transe a tempo de olhar para o lado e ver um carro passar. Registou que já podia atravessar, e assim o fez, entrando no domínio do supermercado. Era um supermercado igual aos outros. Alias, não havia nada naquela vizinhança que fosse particularmente merecedora de atenção, não por fora pelo menos. As pessoas eram iguais as outras de uma freguesia mais ao lado, tinham as mesmas conversas, tinham o mesmo tipo de ideias e de passatempos, e criavam mais uma pequena comunidade com todos os estereótipos que alguém de outro sitio espera encontrar. A senhora da mercearia continua a ser gorda e barulhenta, o marido continua a ser pequeno e franzido, sempre um pouco intimidado com toda gente e em especial com a mulher. O dono da loja de ferragens parecia estar constantemente com medo de água, o dono do café local continuava a ser um idiota com cara de pedófilo, e eram sempre assim, em todo o lado. E não era, portante, de estranhar que o supermercado, uma superfície grande e de metal, fosse igual a tantas outras. Passando pelos tares ou quatro carros sempre presentes no supermercado, e entrando na loja, foi directo retirar um carrinho, que era mais um carrão, mas pronto, e entrou na parte comercial.
Os corredores imediatamente no seu campo de visão estavam vazios. Há algo de bizarro mas interessante em supermercados a noite. O vazio é quase que oco, e estamos sempre a espera que algo aconteça. Era uma terça feira, as pessoas estavam provavelmente em casa a amaldiçoar o começo da semana ainda, e como era um daqueles dias que não é meio, nem fim, nem principio do mês, não haveria lá ninguém que pudesse observar com um ar de desprezo ou curiosidade o pintor, que estava coberto de tinta e tinha aquele ar de quem não via um bom dia de sol a longos, longos tempos. Passou devagar no corredor dos congelados, abrindo e fechando, observando e ponderando. Tinha de comer. Não queria, mas tinha. Não lhe apetecia, era um esforço demasiado inqui9etante para o satisfazer, a não ser nos momentos em que só conseguia pensar em comida. Retirou algumas caixas de gelado, das marcos finas, e algumas caixas de pizza, de comida estrangeira. Lentamente empurrou o carrinho para a zona da fruta. Não muito longe de si, estava a senhora com o rapaz. O brilho das luzes falsas do corredor da fruta contratavam desagradavelmente contra a pele branca e leitosa da velha, o seu batom cor-de-laranja avermelhando tornando-se ainda menos atraente. O rapaz, afinal, era mais novo do que parecia por trás, com a cara com aquele ar de inocência idiota e pouco atraente, um bigode de virgem e com uma postura desajeitada, própria de um corpo ainda em desenvolvimento e com pouca graciosidade. A mão enrugada e pálida, com tonas de castanho e cinzento as manchas, estavam a centímetros das laranjas, enquanto inquiria com a cara a aproximar-se também, como que se já não as visse bem, o que provavelmente seria o caso. Observando-os por um segundo, não sentia nada, apenas erigia as sobrancelhas ligeiramente em curiosidade mas não da simpática, antes de virar a cara de começar a recolher as mangas sintéticas, e os morangos de estufa, e os frutos vermelhos que lhe apreciam a frente. Era o que gostava. Isso e kiwis, só queria isso. Sumarentos, verdes, com um toque acido e amargo, a sensação do interior mais denso. Eram bons.
Não queria mais fruta, mas parou a observar os seus pes no espelho. Mexeu os para direita, e depois para a esquerda. E depois ao mesmo tempo. E depois, durante uns minutos, divertiu-se a coreografar os seus movimentos, qual uma criança que vê algo novo como que se divertir. Talvez o silencio ou um sinal imperceptível o tenha avisado, então olhou para trás, e viu uma mulher jovem na parte dos congelados a observa-lo. Sabem aquele momento em que estamos não interessados naquilo que estamos a ver, que deixamos de ver que é uma pessoa mas passamos a ver o que seja que esta a acontecer como uma peça de teatro, e ignoramos que não o é? E que demoramos um ou dois segundos a perceber que não é, efectivamente, uma peça de teatro, e que a outra pessoa já nos apanhou a vê-la, e que ao contraria da peça em que no sentamos a observar os outros sem vergonha porque é esse o objectivo (demonstramos uma realidade pouco provável ou se provável, quer seria muito menos interessante na realidade), a outra pessoa poderá pensar e interpretar a nossa observação como mil e uma coisas? Foi o que ela sentiu, e demorou uns segundos a perceber que o homem que estava a dançar a frente da fruta a tinha apanhado. Corou, ela corou e olhou para baixo, sentindo as suas faces a ficarem frias, e o corpo tonto, um sentimento parvo. O seu cabelo caiu-lhe em frente da cara, graças a Deus. Passando as mãos nervosamente pela cara, fechou a tampa e nem tirou os camarões que queria, agarrando o seu cesto, tentando não olhar para a figura que tinha visto. O seu cabelo escuro e liso tapavam a sua cara, pequena e com um leve arzinho de rato(para os que gostam de eufemismos).
Não tirando os olhos de cima dela, fixou o seu nervosismo com pouco interesse. Viu-a caminha devagar, entretendo-se a olhar sabe se para lá. Desviou o olhar, enquanto a figura feminina, vestida com um comprido vestido fora-de-moda azul as riscas, e empurrou o seu próprio carrinho para longe dos espelhos da fruta. Entrou nos corredores e saiu, e dali a meia hora tinha o que queria. Mais minguem viu e também não procurou. Aceitava quem vinha com pouco interesse. Chegou a única caixa aberta e descarregou tudo. Fruta, comida, tinha carne, carne de porco, carne de vaca, carne de galinha ou galo, tinha queijo, amanteigado, francês, do velho, do novo, fresco, antigo, curado, de cabra, tinha enchidos, presuntos, muito presunto, tinha vinho, vinho daqui e da li, do tinto, do verde, do rosé para a mãe enfrascar quando lá ia, tinha whisky, muito whisky, tinha vodka e tinha tiquila para as noites interessantes de filmes e de pintura, tinha panos novos que usava sempre ao pintar, tinha laminas, champô, tinha pastilhas, tinha alguma revistas, alguns livro idiotas que vinham ao lado das revistas, tinha cadernos e canetas que estava sempre a perder, tinha produtos de limpeza, tinha produtos para cozinhar, tinha de tudo um pouco, típico de quem evitava sair de casa para compras. Pagou, e parou a frente da caixa, já do outro lado, pasmando. Tinha uns trinta sacos, como os ia levar para casa?
Saturday, 6 February 2010
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