Saturday, 9 January 2010

Sem noticias de Deus - i

Sentaram-se, pacientemente. Não lhes interessava o que estava a sua volta, nem a casa, nem os sofás, nem as paredes, nem a cor da tinta, nem o cheiro do ambientador que pouco ou nada disfarçava o pesado e ligeiramente nauseabundo cheiro a tinta velha e não usada, vinda do canto da casa, da suposta sala criativa. Não era bem uma sala criativa, porque a sala em si de criativa não tinha nada (que mania de atribuir qualidade a coisas inanimadas, sinceramente) mas era lá que ele se sentava e gastava horas, pacientemente atirando para o infinito nada as suas preciosas horas do dia. Podia dizer-se que ele não tinha problemas quando pensava que hora a hora, minuto a minuto, ele gastava os seus anos de vida, já a começarem a ser uns quantos (mais do que uma mão cheia, se quiserem uma forma de expressão, e neste caso seria mais do que todos os dedos que ele têm no corpo e não, ele não é disforme) e que quando pensa que os melhores anos da sua vida, pelo menos da vida de adulto, estão a ser passados quase barricado dentro de um apartamento esquecido no canto da cidade, ele não sente nada, apenas alivio de que se pode esconder do mundo, e de tudo, apenas saindo para fazer compras. Ainda nem computador tinha, o telefone começou a tocar demasiadas vezes, e pouco lhe interessava o método de mandar vir a comida a casa. Gostava de sair, ir ao supermercado no fundo da rua. Era um dos grandes, dos cheios. Ele aprendera a saber instintivamente a que horas estaria mais vazio, e a visita-lo. Ia de noite, quando apenas os estranhos saiam de casa.

Por volta da meia-noite, parecia que era a hora em que todas as pessoas que não queriam ser vistas iam as compras, porque por muito estranho que pareça que certas pessoas tenham comida em casa visto que nunca saem e nunca ninguém as vai levar a casa, esta não lá aparece por obra e graça do Espírito Santo, visto que este não existe. E se existisse, não lhe parece que estivesse muito preocupado com os seus hábitos alimentares. Lançando um olhar rápido ao casal, mas não casal romântico, na sala, deixou escapar um suspiro enquanto preparada os cafés. Tinha daquelas máquinas novas, bonitas e práticas. Excessivamente caras para um porcaria que expelia café, mas enfim, quem muito pode e pouco quer têm direito a certos luxos. Olhando em volta, o que restava da sua moralidade social sentiu um aperto, deixando-o indisposto. Não recebia visitas a algum tempo, e as que recebia eram amigos, ou pessoas, que conhecia a muito tempo. Por qualquer razão o facto de as conhecer de tal forma libertava-o das convenções sociais de arrumação e limpeza. Mas com os desconhecidos na sua sala, nojenta e que não via um aspirador desde que tinha sido comprada por ele, sentiu-se algo inútil. Desajeitadamente, levou os três cafés para a sala, sentando-se na sua poltrona. Observou as pessoas a sua frente.

A mulher não era bonita nem feia, nem atraente nem desinteressante. Tinha aquele ar de quem nunca nos lembramos do nome, ainda que a ou o vejamos todos os dias, durante anos. Olhos claros, cabelo soltos, uniformes e bem arranjados, sem qualquer traço de estilo ou um interesse afincado. Era arrumação simples e pura, não com o objectivo de se por bonita. Devia estar a sentir-se completamente descolada e enjoada com a sua casa, pensou ele, num misto de divertimento infantil e de culpa, leve mas existente. Tossiu, em jeito de começo. Sabia perfeitamente o que queriam, e eles sabiam perfeitamente que não o iam ter. Não vendia, não dava, nem emprestava nada do que fazia, nem para coisa nenhuma, nem para salvar os meninos de África. Pouco lhe interessava que chorassem, que lhe ameaçassem cortar o futuro, que lhe roubavam os quadros, que lhe tiravam a casa, que lhe matavam o gato, que o raptavam, que lhe envenenavam a água.

- Já lhes disse, umas boas mil vezes, que não vendo, diz ele, de forma agradável. Já está tão habituado a esta conversa que desistiu de ser rude e desagradável. Parecia que quando mais lhes batia, mais eles gostavam dele. Podia ser que se fosse querido e simpático que o rotulassem como bipolar e o deixassem em paz, de uma vez por todas, escapa-me o porque da insistência.

Mas as vezes a vontade de ser ruim escapa por entre as garras da moral.

O homem sem nome ou significado, tossiu por sua vez, e olhou em volta. Era, sem duvida, tudo que lhe tinham dito. Uma casa espaçosa, mas claustrofóbica, devido ao ambiente escuro e pouco iluminação. O por de sol de Lisboa, que tanto iluminava a cidade, no seu lusco-fusco resplandecente, era unicamente representado num dos vários quadros encostados a parede, como lixo velho, mas não entrava pela janela, naquela tarde de terça-feira. Olhando em volta, questionava-se como é que o homem a sua frente não saia de casa, em pânico e a dar em louco (se já não o era) de tanta escuridão. Mas não era calmo nem ingénuo ao ponto de achar que era apenas um reflexo algo romântico do lado negro de artista. Era uma escuridão calculada, talvez sendo que o desejo de manter todos fora e longe fosse um resultado da escuridão do pintor, cujo o nível era desconhecido, talvez até a ele próprio. A sala de entrada e de estar era composta unicamente por um sofá de quatro lugares, largo, podre de velho, de um tecido que em tempos havia sido vermelho e agora era uma mistura peculiar de vermelho escuro, preto, manchas castanhas e tinta. Havia variadas poltronas, sabe-se lá de onde e de que século, todas antigas, e arranjadas ao Deus de ara na sala, enorme e pintada de escuro. De decoração tinha meia dúzia de quadros, seus e de outros, nas paredes, e quadros, uma panóplia de quadros encostados por todo lado, por entre livros, e caixas, um leitor de vinil, uma televisão enorme, e um Xbox. Já nem os ermitas dispensam as novas tecnologias, ao que parecia.

Era uma casa algures em Lisboa, na parte velha e pouco segura. Toda a casa era antiga, a cair de podre, daquelas casas peculiares, agora divididas em apartamentos. Mas toda a casa era sua, herança de família ou sabe-se lá como, ainda que usa-se apenas o ultimo andar. Dos cinco andares, sem elevador, com as escadas em péssima condição, com pouco ou nenhuma luz em certos lugares, com as paredes a ruirem, a tinta a descolar-se e todo o ambiente sinistro de plantas a morrer e de portas trancadas a chave e quartos vazios, parecia que o dono da casa estava a fazer o seu melhor para desencorajar visitantes.

- Entendemos a sua posição, mas digamos que...

A voz do homem era entediante. Que tédio, oh que tédio. Bebendo o seu café, observava a boca, uniforme e fina, do dona da galeria, e sentia-se a deixar escorrer o mau estar e falta de paciência para com o tópico. Sentiu algo dentro do bolso vibrar. Sem pedir licença ou expressar alguma cordialidade formal, tirou o pequeno, gasto e feio telemóvel do bolso, e leu MÃE no ecran. Rangendo os dentes, rejeitou a chamada. Ainda não tinha ido as compras, e não lhe apetecia ter que se explicar aquela mulher e sessenta anos, louca e histérica, mais viva do que ele alguma vez fora.