Enrosco-me no meu kimonozinho azulão, e vou reconfortando a minha própria alma. Adorei este kimono só pelo facto de ser o oposto do da minha irmã. O dela era absolutamente precioso. Branco, quase transparente, delicado e com um lindíssimo dragão. Na minha imaginação, claro, está soberbo de flores bordadas à mão com delicadeza, e é o kimono perfeito, o meu kimono perfeito. Mas ela é que o tem. O meu é de um tecido mais pesado, ainda que continue a ser leve, é de um azul forte, do tipo de azul que se aceita em verniz para miúdas de doze anos e para meias dos anos 80. Mas, isto nada haver tem com o tópico, realmente. Suspiro. Digo me que está tudo bem, que eu percebo as motivações, justificações. Vou acompanhando o som do macaco que bate palmas na minha cabeça. Palmas ou dois pratos, daqueles que são quase instrumentos musicais mas nenhum musico a sério toca (já alguém conheceu um tocador de pratos? é como um tocador de xilofone. a sua existência é meramente teórica). Vai batendo, paff paff paff, e o resto do meu corpo vai acompanhando o ritmo da musica, silenciosa (porque não existe fora da minha cabeça) e eu vou revendo as imagens na minha cabeça, como que se a ver um álbum de fotos muito, muito desagradáveis. Nostalgia nunca foi um grande hobby (mentirosamentirosamentirosamentirosamentirosamentirosa). Vai, vai, vai... vai batendo na mesma tecla, digo a mim própria, vai batendo e pode ser que um dia, entendendo que o que fazes é errado, chegues ao porque de seres tão comum, tão vendida às ideias que os filmes e a televisão te vão vendendo. Sentas-te e vais-te empanturrando com comida de plástico, que te entope o estômago com ácidos, que te corrói as veias, que as vai enchendo de gordura, amarelada e flácida, que te vai deixando cada vez mais mole. Sentas-te à janela, olhando o mundo com olhos vidrados e mortos, enquanto fumas um e mais outro cigarro, e depressa fumas um maço, dois maços, três maços, até já não sentires o fundo da tua garganta, e imaginas os teus pulmões a morrerem lentamente, como vitimas de um fogo invisível (arde mas não se vê, como o fogo poético), e os teus pulmõezinhos vão gritando de surdina, gemendo que nem crianças para que pares, mas tu estás a ver o carros passar, anestesiada pelos moralmente repreensíveis vícios de nicotina e seja lá o que metem no tabaco. Ai, que vida.
Não que seja complicada, nada disso. É assim, muito simples. Tanto quando a experiência me permite e tanto quando a inteligência me deixa assimilar, não é que haja quem não saiba o que corre mal, é só que gostamos de sofrer. Todos somos masoquistas, de uma forma ou de outra. Mas, ainda assim, tanto faz porque tudo, de uma forma ou de outra (nem que seja por exclusão de partes), nos faz sofrer. Não por que assim tenha que o ser, apenas porque assim o é. Tudo está bem quando acaba bem, e nos entramos em cena, de armas e bagagens, desistimos do sonho, e lá vamos nos, rua fora, com milhares de cenas dos tais filmes (malvados) na cabeça, que nos dizem que sem drama a nossa vida não funciona, simplesmente deixaria de fazer sentido. Ser feliz? Não! Nunca! Só se pode ser feliz depois de muito sofrer, e tem que ser por pouco tempo, ou então ai deixamos de saber "apreciar o que é bom, porque já não conhecemos o mau".
Congelo, sinto a estômago a morrer um bocadinho. Sinto-me tentada a voltar atrás, só para fazer este conflito ir-se embora. Mas sei que isso só me iria trazer mais conversas, mais sentimentalismo, mais e mais e mais e mais. Sentindo o sugar das minhas energias emocionais e o escapulir da minha racionalidade por entre os meus dedos, vou negando beijos com carícias, e dizendo que no fundo, o mundo está melhor sem mim. Devia ter sido actriz.
Tuesday, 1 June 2010
Subscribe to:
Posts (Atom)