Tuesday, 12 January 2010

"Morreu a minha netinha, de dez anos, sem ar."

Sem ar, dizes tu? Morreu como? Asfixiada nesta pobreza de espírito, sem eira nem beira, sem suporte nem... nada? Sento-me, cansada, os olhos a pesarem-me na cara, enquanto sinto o leve balanço da carruagem, que me leva a um estado de não sono, mas de profundo cansaço. Seria mais fácil morrer, deixar me ir, sem preocupações nem nervosismos. Simplesmente... dormir. Mas depois acordo, e olho para a senhora ao meu lado. Sorri-me, deseja me saúde. Como é que se perde alguém assim e se deseja saúde a desconhecidos no metro? Não sei, as vezes pondero se alguém lá em cima não me manda estas piadas de mau gosto, só para me testar a paciência.

Mas isso seria presunção e arrogância que alguém lá em cima quer saber de mim.

Então, acompanho o seu passo parado, enquanto ela me fala. Sorrio-lhe, mal ouço o que diz, fala baixo e para dentro, mas que mal tem sorrir-lhe? Olha-me, toca-me no ombro. O gesto não me assusta nem intimida, mas faz me sorrir ainda mais. As vezes, são raras, engraço com estes toques. Não são românticos ou sexuais, são humanos. Toques humanos. Da nossa, da minha pelo menos e da de alguns, de tocar noutra pessoa. Um choque. Uma colisão. Para nos relembrarmos que não morremos. Que ainda estamos aqui, presos na terra que o patrão lá em cima criou. Um espécie de post-it, para nos lembrar-mos que não, as pessoas a tua volta não são apenas nuvens, etereas e passageiras, como tantas vezes parecem. Entram e sai-em das carruagens, nunca mais as vejo. Não sei se os meus vizinhos são os mesmos todos os dias, vejo sempre mil e uma pessoas que nunca vi antes. Nunca as mesmas. Ou sou eu que vejo mal?

"Morreu a minha netinha, de dez anos, sem ar." diz me a senhora.

Fixo-a, e o mundo para. Que lhe vou dizer? Acabei de comentar que não foi ela que engordou, mas que foi o casaco que diminuiu. E agora digo-lhe o que? Uma frase bonita, tirada de uma cartão de papel das tabacarias, como "pelo menos está num sitio melhor"? Que raio de frase é essa?

A mim e a senhora que interessa que estejam num sitio melhor? Antes estarem cá, neste ninho nefasto e putrefacto, onde pudemos chorar ao seu ombro do que num sitio qualquer, a chorar pelas cinzas e carne podre e pelo seu ombro agora uma ideia abstracta e não uma realidade? Sou feita de carne! De vermelho, de tecido. Que me interessam os confortos escassos da alma, se é o corpo que me doí? Que me interessa?! De nada me servem ideias ocas, e de nada servem palavras vazias à senhora. Que lhe digo?

O momento passa, e sorri-me. Deseja me novamente saúde, e despacha a minha presença. Como quem diz que sabe que tenho outras coisas a fazer. Subo as escadas, um pouco atordoada, um pouco anestesiada pelo sono de estar acordada desde as quatro da manha. Não sei se pouco dormir é melhor que não dormir (sabes o que perdes). Mas olho para trás, e vejo-a, desajeitadamente subindo as escadas, com os seus óculos de avo de filme, redondos e com reflexos, o seu cabelo grisalho e fino, prateado e branco, encaracolado cuidadosamente em volta da sua cara, o seu casaco, demasiado pequeno, de cabedal preto, e sinto-me desfalecer. Vai para casa, para quem? Que casa? Pergunto-me se vive sozinha, se vive numa casa fria. Se mesmo que não viva sozinha, se se sente sozinha. O vómito enche-me a traqueia, e desvio os olhos no momento em que ela retorna a olhar para mim, com um sorriso curto de despedida e continuo a andar. Subo as escadas a correr, a fugir. A fugir daquela ideia, daquela mulher, velha, a morrer por dentro e por fora. Fujo do medo, do terror, do horrível da sua realidade. Mas eu posso fugir, ela não.

Será que se sente sozinha? Tremo. Chego a casa, deito-me mas não consigo dormir. Olhando o céu, penso. Que ideia de testes tens tu, ó Deus? Tiras e dás. Como viver sem aceitar que o que tu tiras assim tem que ser, ou seria louca. Louca por viver num mundo sem nexo, de for ao acaso, de ocorrências rotativas, como um totoloto da desgraça. Vai e vem, e em quem calha? O meu estomogo não assenta, mexe-se com vómito, sinto a cabeça pesada, dormente e cansada mas não consigo dormir. Porque? Porque viver?