Admito que me entrego a devaneios mais vezes do que não. Pudera, vida singela. Sem graça, sem pó de arroz que anime a sua face podre. É podre! É! Eu vejo-a, a cair de estragada, amolgada pelas noites acordada, sem dormir e sem sonhar. Não sonha, não vive. E se não vive, apodrece. Cai, pouco a pouco, perdendo primeiro a cor. Perde as cores avermelhadas e esbranquiçadas de rosto. Perde a pele e os poros. Estes secam e fecham-se, envergonhados. E depois, a pouco e pouco, devagarinho, com um cheiro forte a estragado, aquele cheiro de casa solitária, cheia de mundos e ideias vazias (o que será que lá acontece quando não está lá ninguém?), que não é limpa, nem amada, começa a descair. Lentamente, devagar e vagarosamente a pele começa a enrugar, qual cadáver seco e putrefacto, que se arrasta da campa e me assombra, e vai caindo, em jeito de filme, deixando a carne seca e amarela de pus, que náusear profundo, e eu olho a pele, e encolho-me num misto de admiração e vómitos. Olhem bem! Olhem! Olhem! Olhem, que todos adoram um bom susto. Uma boa sensação de nojo que percorra o estômago e a pele, que nos deixe excitados, corados de enjoo. Nem andar de barco nos deixa assim. Sim, porque existem diversos tipos de repugnância. Existe aquela leve, que provoca um leve ar sarcástico e um pouco sisudo. E depois há aquele nojo que a minha pele (que lentamente cai e apodrece no espelho) me provoca a ti e a mim. Aquele nojo que vem das entranhas, aquele nojo de sangue e suor com cheiro a prazo expirado. Ai, como nos consome aquele nojo. Tudo em ti se revolta, ai, como gritas. Mas como posso eu gritar, se a minha pele cai, lentamente, escorrendo devagar pelo meu corpo, em direcção ao céu, deixando um rasto de infectado, de negro e amarelo infectado qual doença contagiosa... A falta de alma contagia?
Tuesday, 5 January 2010
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