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Wednesday, 6 January 2010

Comboio. 14 horas e 53 minutos.
Olha à volta.
Família à esquerda. Vai de costas. Rapazito insuportável à frente. Avós despreocupados. Rapariga chata.
Casal idoso em frente. Senhor ao lado.
Senhores ocupados a preencher os seus livrinhos de jogos de viagem.
Apercebe-se que o senhor é filho do outro senhor.
Observa a paisagem. Esboça um sorriso. Imagina o comboio vazio. Silêncio. Fecha os olhos e sorri. Esta imagem anima-a. Paisagem novamente.
Imagina o que estarão as pessoas a pensar. Algo que costuma fazer.
O senhor a seu lado mastiga a sua chiclete freneticamente.
Lembra-se, momentaneamente, da música dos Táxi. Entoa-a, baixinho.
Começa a nutrir ódio pelo rapaz irrequieto e incansável.
Observa a família. Uma como tantas outras. Demasiado comum e normal a seu ver. Pai a ler jornal. Filho jovem a dormir. Mãe a ler revista de culinária. E filha, novinha, a desenhar.
Estranhamente felizes.
Imagina-os na sua cozinha. A ter uma refeição como as inúmeras outras que certamente já tiveram.
Pára. Lança um olhar quase homicida ao miúdo que não se cala.
De volta à família. Vê-os - como se fosse uma sombra - confortavelmente na sua sala à volta da (lareira? não.) televisão. (Infelizmente).
Pára.
Fica estática por alguns momentos.
Vê o puto no chão. Deseja que ele tivesse caído. Sente-se observada. A senhora olha-a discretamente enquanto esta escrevinha num molho de folhas amarrotadas.
Pára. Murmura algo de uma música que ouve. Pensa como seria viver na altura em que a banda, que escuta apaixonadamente, existiu.
Bate o pé.
Não tem sido um dia produtivo.
Sente o Sol a bater-lhe na cara. Sensação de conforto.
Sente o braço dormente, a mão cansada e os dedos a doer.
Pára.

-


Recomeça.
A palavra L E T A R G I A R , do tal livrinho de jogos, consome-a. Sente que já não dorme há dias.
O filho acordou, adormeceu. O pai parou. A mãe fechou os olhos. A filha morreu.
Oh, afinal não. Chamou a mãe e levantaram-se.
Odeia viajar de costas. Banal, ela sabe.
O pseudo-projecto-de-pessoa vai contra ela. Lentamente levanta a cabeça. Fica com uma expressão um pouco psicótica. Como se a qualquer momento se levantasse e extinguisse aquele acumulado de tecidos orgânicos. Exagerado, uh?
Reprime a veia sádica. E, apenas se arrepende de não ter esticado a perna. Só ligeiramente. De forma a fazê-lo cair. Gentilmente. Ou só tropeçar.

Túnel.
O Sol desapareceu.
Frio.
Fim da folha. Música envolvente.
Pára.