Movendo-se desconfortavelmente no assento, cerra os olhos, vedando os seus portais ao mundo. Não percebe porque é que acha, inconscientemente, que se fechar os olhos com muita força que o barulho da discussão vai acalmar mas parece que a relaxa. É mais cruel, mais bruto ouvir e ver o que se passa, num esfera diferente da sua, mas ao seu lado. Ignora, o silêncio do banco de trás do carro, um espaço pequeno e fechado, embora prático, torna-se ligeiramente claustrofóbico, e ele encolhe-se no seu interior, a ignorar as palavras duras, palavrões sem sentido que a ferem, mesmo que não seja para si. Já com o pescoço a doer de dormir durante uma hora no carro, não consegue já encontrar uma posição que se assemelhe a confortável. Irrequieta, balança de um lado para o outro, fingindo não estar ali, algo em que tem muita pratica, criando as suas barreiras altas e fortes (fragéisifragéisfragéis). De olhos bem fechados, com música no seu interior, a tocar e a fazendo-a sentir que tudo passa. Habituou-se a dizer a si própria que o tempo passa, que é subjectivo. Que os minutos não são minutos, e que as horas não são horas. Quinze, vinte, meia hora, não lhe interessa, nem a aflige. Toda a sua prática deu-lhe a capacidade de ignorar as horas com um à vontade que é pouco natural numa pessoa tão impaciente.
Farta do negro que não vê no interior das suas pálpebras, abre os olhos, mas continua a ignorar o resto dos passageiros, olhando o que se passa lá fora. Nunca é capaz de dormir por muito tempo num carro. Invariavelmente, por muito cansada que esteja, por muito farta, irá abrir os olhos e observar com uma maravilha digna de uma criança que nunca saiu de casa tudo o que se passa à sua volta. Tudo a fascina, mesmo que isso a envergonhe. Nada é igual, parece que a beleza é circundante mas não central, pelo menos para ela. Tudo é belo à sua volta, por dentro tudo é escuridão.
Monday, 4 January 2010
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