Thursday, 7 January 2010

Não me olho ao espelho.

Sinto que caminhei quilómetros, milhares deles. Já não sinto aliás, mas dizem-me que sim. A mente está cansada e o corpo manifesta desgasto.
Paranóia. Não me olho ao espelho.
Apercebo-me que estou no ponto de partida. Onde ? Dizem-me que sim. Ponderei a hipótese de já ter terminado, ter dado uma volta imperfeitamente perfeita. Dizem-me que não.
A verdade assusta-me, essa cabra insensível, que me esfrega na cara, todos os dias, que ainda não saí do mesmo sítio. Observo a minha sombra. Percorre um circuito fechado que me rodeia e limita. Vejo-a com um sorriso trocista. Perturba-me. Não me olho ao espelho.
Ouço a mesma música repetidamente, incansavelmente, não porque a ame. Mas dizem-me que sim.
Noite. Na presença dessa exímia e sábia senhora, os meus pensamentos atormentam-me, fujo, para não chegar à conclusão de que sou miserável. Dizem-me que sim. Não me olho ao espelho.
Desejei que o tempo voltasse atrás, porém este não cedeu ao meu capricho. Parou. Dizem-me que não. Acordei de um sonho inconstante, com períodos de extrema lucidez e períodos de incessante angústia. Dizem-me que não. A verdade é que não durmo.
Dizem-me que sim.
Saí de um carrossel no sítio errado. Não, impossível. Só anda às voltas. Talvez não. Dizem-me que sim.
A incoerência da minha mente tem vindo a aumentar. Ninguém sabe. Tudo rodopia. Dizem-me que não. Vomito.

As caras são diferentes, desfocadas. Neste pedaço de cimento sou uma estranha. Dizem-me que sim.

A criança revolta-se.

A criança revolta-se. Borboletas no estômago ?!
Mas quem é que inventou isso? É tudo menos borboletas no estômago !
Porque é que ninguém a avisou?
Porque é que ninguém lhe disse que seria algo a corroer-lhe o peito?
Quais borboletas qual quê ?!
Mais 10 000 abelhas a esvaziarem-lhe os pulmões, como se o seu oxigénio de pólen se tratasse.
Um poço mental sem fundo.
Borboletas ?! Pfff..
Porque é que ninguém a avisou ?
Não me sais da cabeça.
Não sais, não te mexes. Sempre nesse teu lugar, quente e pegajoso, sempre ai. Sentas-te confortavelmente e observas-me, todo o dia, a toda a hora, constantemente. A tua precensa, silenciosa e quase como Deus, omnipresente, incomoda-me. Engulo a seco, e pondero, sentada eu própria, nas cadeiras da cidade. Penso em falar, dizer qualquer coisa. Sinais de vida quaisquer. Não mensagens típicas da época, não tenho paciência para formalidades, já me devias conhecer melhor. Mas, enfim, eu conheço-te a ti. E sei que vives da imagem de normalidade que fomentas. Fomentas essa ideia de formalidade estática, com os teus maneirismos calculados e previstos. Com manias da perfeição. Dobras tudo bem dobrado, arrumas tudo sempre no sitio, dizes sempre as coisas certas. Não as melhores, as com mais significado, apenas as mais formais, as mais típicas. O mais genérico sem ser demasiado genérico, ou seja, as mais falsas das palavras humanitárias e carinhosas. Não! Já te disse que não te quero assim. Não te quero com a formalidade que tanto me irrita. Não te quero de forma alguma, mas não consigo não te querer. Dás me eternas dores de cabeça.

Podia falar. Podia. Podia mas não quero. Não quero porque não tenho que te dizer. Não tenho que te dizer que não seja formal ou que não seja incómodo.
"I was sick of expecting answers, so I grabbed my chance and did what I thought was right. But things didn't go the way they were supposed to, and I was advised to wait for things, that would come with time. So I did. I closed my eyes and waited patiently...and waited,and waited,and waited,and waited...and I kept on waiting until I decided to do things my way...and of course I screwed everything but at least I didn't feel so useless, but then again, is it better to do something, even if it goes wrong, then do nothing I wait in doubt for something that may not come? Now, I'm more alone then before, but I guess I have less doubts then before, not that the truly important questions were answer, but only the more shallow ones. And now here I am...just waiting for destiny to knock on my door, or maybe I'll bump into it...or I'll just bump into something and mistake it for something else and get really frustrated and -"

"Hum...what would you like to drink?" Asked the waitress, as I stared blankly at the napkin I was talking to for over an hour. It's not like there was anyone else to talk to, and the salt was already bored with me.

-- 2005

It happened

It was a day like all the others, just another day, when it happened. Yes, it happened. The girl was stranded in her own mind, like always, when it happened.
What happened?
  • To the eyes of others, nothing.
  • To the girl, it happened.

In a plain movement of reaching something the boy held the girl's hand. He held it for merely 2 seconds. Those same precise and real 2 seconds, felt like an eternity for whom whose hand was being held.- the girl - In a split second, she felt the unknown eternity in a touch. Poor, unwise girl, remembers nothing but the touch. She saw the boy's mouth moving in a way of producing sounds however she did not listen. Why should her? It was irrelevant. He could have not held her hand but he did.
His hand was neither cold or warm, it didn't matter anyway. It happened, the perfect touch. The simple touch of two naked hands, which so often and commonly occurs.
It happened, and then she knew. Yes, the little girl just knew.
She knew she had to have him. No, she knew she would have him.
When ? Who cares ?! The when seemed unimportant when she knew it would happen.
- Silly, uh?

She had already touched that boy before. A kiss, a hug, a gentle bump, however it wasn't it. And those peculiar 2 seconds were it. It happened, and now she knows. How? Once again, unimportant..
Stupid, uh?


It happened.



Wednesday, 6 January 2010

É como esquecer as palavras da tua música preferida. É como esquecer o nome da pessoa de quem gostas. É como chamares um amigo ciumento o nome da pessoa de quem este tem ciumes. É como elogiares algo de alguém e ser de outra pessoa. É como atropelares alguém a pé, andares sempre e depois ficares a saber que conhecias, embarraste contra ela, e não lhe falas-te. É como acordares dois minutos antes de tocar o despertador, mesmo num sonho bom, e podias ter visto o fim. É como... sentires-te imensamente... indescritível. Porque é que não há palavras para tudo? Acabam por ser só sons em qual todos nos concordamos, a qual nos, alguém, decidiu atribuir um significado. Vergonha não me descreve, nem ao que sinto. Amor, tão pouco. Os níveis de cada sentimento, que nome lhes atribuo? Amo-te como quem ama a nível seis, vês, és muito especial. Não, acho que me sinto assim triste mas apática, mas não é bem triste. Não sei, apática-convergido-com-tristeza-a-nível-dois-de-tristeza-e-cinco-de-apatia, estás a perceber?

Não. Diz lá isso com uma onomatopeia. Ai, sim, estamos a falar bem.

Comboio. 14 horas e 53 minutos.
Olha à volta.
Família à esquerda. Vai de costas. Rapazito insuportável à frente. Avós despreocupados. Rapariga chata.
Casal idoso em frente. Senhor ao lado.
Senhores ocupados a preencher os seus livrinhos de jogos de viagem.
Apercebe-se que o senhor é filho do outro senhor.
Observa a paisagem. Esboça um sorriso. Imagina o comboio vazio. Silêncio. Fecha os olhos e sorri. Esta imagem anima-a. Paisagem novamente.
Imagina o que estarão as pessoas a pensar. Algo que costuma fazer.
O senhor a seu lado mastiga a sua chiclete freneticamente.
Lembra-se, momentaneamente, da música dos Táxi. Entoa-a, baixinho.
Começa a nutrir ódio pelo rapaz irrequieto e incansável.
Observa a família. Uma como tantas outras. Demasiado comum e normal a seu ver. Pai a ler jornal. Filho jovem a dormir. Mãe a ler revista de culinária. E filha, novinha, a desenhar.
Estranhamente felizes.
Imagina-os na sua cozinha. A ter uma refeição como as inúmeras outras que certamente já tiveram.
Pára. Lança um olhar quase homicida ao miúdo que não se cala.
De volta à família. Vê-os - como se fosse uma sombra - confortavelmente na sua sala à volta da (lareira? não.) televisão. (Infelizmente).
Pára.
Fica estática por alguns momentos.
Vê o puto no chão. Deseja que ele tivesse caído. Sente-se observada. A senhora olha-a discretamente enquanto esta escrevinha num molho de folhas amarrotadas.
Pára. Murmura algo de uma música que ouve. Pensa como seria viver na altura em que a banda, que escuta apaixonadamente, existiu.
Bate o pé.
Não tem sido um dia produtivo.
Sente o Sol a bater-lhe na cara. Sensação de conforto.
Sente o braço dormente, a mão cansada e os dedos a doer.
Pára.

-


Recomeça.
A palavra L E T A R G I A R , do tal livrinho de jogos, consome-a. Sente que já não dorme há dias.
O filho acordou, adormeceu. O pai parou. A mãe fechou os olhos. A filha morreu.
Oh, afinal não. Chamou a mãe e levantaram-se.
Odeia viajar de costas. Banal, ela sabe.
O pseudo-projecto-de-pessoa vai contra ela. Lentamente levanta a cabeça. Fica com uma expressão um pouco psicótica. Como se a qualquer momento se levantasse e extinguisse aquele acumulado de tecidos orgânicos. Exagerado, uh?
Reprime a veia sádica. E, apenas se arrepende de não ter esticado a perna. Só ligeiramente. De forma a fazê-lo cair. Gentilmente. Ou só tropeçar.

Túnel.
O Sol desapareceu.
Frio.
Fim da folha. Música envolvente.
Pára.