Monday, 4 January 2010

Tremo. Não de frio. Não tenho frio, nem calor. A minha temperatura corporal é-me indiferente, enquanto tremo, estremeço e sinto aquele abanar nos meus músculos, como que se estes estivesse a gritar por si, a atirarem-se contra mim, protestando a minha existência. Ai, os males de pensar. Nada, nada entra. Compulsivamente leio, e volto a ler. Escrevo, descrevo, penso e repensando outra vez. Formas e, mas... que formas? O que? A quem? Não entendo! Não entendo! O meu cérebro grita, grita, estridente dentro de si próprio, a escuridão e a falta de limites está a começar a sucumbir perante a pressão. Angustia, nomeio palavras, não as sinto.

Que faço, que faço?
Esfrego os olhos. Outra e outra vez. Encostada, sentada no meio da banheira, observo pensativa o que me rodeia. Pouco me interessa onde estou, porque a banheira só existe na minha cabeça neste momento. Não que o conceito me seja desconhecido, mas isso já não interessa. A minha higiene pessoal é de pouca importância. Esta frase fez-me sorrir. Tudo o que é porco e imundo me faz sorrir, não percebo bem porquê. Qualquer coisa em mim me faz amar e repudiar tudo o que é imundo e indecente. Sabem o que eu amo? Não sabem, mas eu digo-vos. Amo casas decadentes, amo banheiras e casas-de-banho vazias. Um dia, qualquer dia, irei desenhar a minha casa. O sítio principal? A casa-de-banho. Porque? Não sei, mas sei que lá me sinto confortável. Não sei, lá... a minha cabeça deixa de estar no sítio, e posso delirar. Delirar. É-me tão familiar delirar. Entrar em profundos pensamentos de pouca profundidade. Olhem, eu sei ver o que são paradoxos.
Nunca ninguém entende porquê o meu imenso amor por transportes públicos, e devo dizer (para não soar hipócrita mais tarde) que ás vezes também não, mas passo a (tentar) explicar.
Todos os dias ando de metro, e todos os dias algo interessante acontece. Pode ser a mais ínfima coisa, o mais menor dos detalhes. Mas está lá. Quando uma criança se ri, maravilhada, com a sua mochila e as suas pequeninas bolachas. Quando uma menina corre, sorrindo quase em jeito de desculpa, para apanhar o metro. Quando um casal se senta junto, e fala. Não são momentos heróicos, nem particularmente grandiosos. São só ocorrências humanas, nano-segundos de emoção. Um faísca, uma colisão.
Faz-me sorrir.
Pondero se só eu os vejo. Quando de manhã vou no metro, olho em volta para as caras fechadas, nem bonitas, nem feias, mas fechadas e de olhos baços. Penso, pergunto e questiono-me silenciosamente se é do sono. Ou se estão a dormir, mesmo por dentro. Apagados, sem luzes (brancas, ou de natal, psicadélicas, seja o que for). Olhos desligados e desapegados. E depois, olho para o meu reflexo, ajeito o cabelo, mas olho-me nos olhos (que experiência tão aterradora) e experimento. Estão baços também?
É por isto, este exercício matinal, filosófico até, que gosto do metro. Quem é que, para além de mim, se interroga da sua existência? Ouvir a mente dos outros havia de ser uma boa dor de cabeça, dentro de uma caixa de metal, subterrânea e a andar a alta velocidade. Que silêncio confortável.
E de vez em quando, um sorriso amigável. Será que me lêem os pensamentos?
"Quando somos pequeninos dizem-nos que a vida é dificil, mas até certa altura não compreendemos a verdade nessas palavras.
Ao longo do tempo vamos experimentando coisas que nunca sonhamos. Aprendemos que todos os actos tem consequências, que cada palavra dita pode ser usada contra nos.
Aprendemos que nem sempre a coisa certa chega na hora certa, e que não podemos agradar a todos.
Que por muito que doa ter o coração partido, o mundo não espera por nos,
Aprendemos a escolher, não entre o certo e o errado, mas entre o coração e a mentem i bom e o mau, e muitas vezes entre nos e os outros.
Aprendemos que por muito que doa, por muito que seja mau, o sol vai continuar a nascer, e que lá fora ninguem quer saber e que no fim, de uma maneira ou de outra, as coisas acabam, bem ou mal."

Reflectes nas palavras que escreveste com quinze anos, e sentas-te, com um sorriso amargo de maturidade indefinida, de quem já sabe isto de cor e salteado. Ás vezes, tal como toda gente, esqueces-te que já, um dia, foste um pobre bezerro, arrastado pelas correntes a tua volta. E que, com o tempo, começaste a criar sistema de defesa, formas de combate, projectos de luta e métodos de deixar de te sentires tão indefeso perante aquilo que te parece inevitável. Convences-te que ao cresceres te tornas-te algo invencível, dentro do teu espaço pessoal. Olhas-te ao espelho, e sorris. Sorris. Achas que acredito neste sorriso? Porque por dentro, continuo a ver o coração que grita. Grita perdido, os sons a serem abafados por toda essa tua segurança, que estala a cada segundo, com cada momento perdido e mal aproveitado. Estala, oh como ele estala. E todas as correntes de emoção, todos aqueles gritos inconformados, não poéticos, pouco profundos e ponderados espalham-se sobre ti, esmagando e sujando toda a tua bonita imagem. A perfeita imagem que tens vindo a criar para ti. De uma segurança estável. Estável? O que é isso? Lembra-te daquilo que eras com quinze anos, quando um dia olhas-te em volta e apercebes-te que se calhar aquele mundo de fantasia não era segurança nenhuma, mas apenas mais um espelho, que se reduzia a cinzas, queimadas por todos aqueles que não querem saber de ti. Pronto, magoei-te agora? Dói sentir, não dói? É disso que te tens que lembrar. De sentir. Sente, sente pelo corpo todo, pela alma e pelo o espírito. Sente de forma a que quando deixares de sentir, foste mais além daquilo que os outros foram. Sentiste com alma e coração. Que mais podes querer desta vida insípida?
A vida dói-te? Temos pena.
A vida dói a toda gente. Dói tanto que arranca, bocadinho a bocadinho, pedaços da gente.
Bocadinho a bocadinho, que já nem se sente. Arranca sem pudor, com ódio piedoso.
Já nem se sente até sentires tudo de uma vez, até que o ar já não é respirável, o oxigénio esgota-se para ti. Até que a água já não é potável, já não podes beber porque foge da tua boca, e parece que passaste uma eternidade à seca.
E como te atreves, tu a mascarar a crueldade com a dor?
Dor não é desculpa!
Dor é motivo, consequência, culpa e fardo. Mas não desculpa!
Dor de ver, de sentir, de causar, de chorar.
Pois então, morre. Que me cansas.
Morre! Morre para o mundo, porque, sinceramente, o mundo já morreu para ti.
Com essa insensibilidade cheia de certezas, de pretos e brancos e nenhum cinzento. Cinzento é... duvida, cor, amor, ódio, paixão. Cinzento é a verdadeira dor do amor apaixonado, ou amor louco, entregue, cúmplice, confiado e da necessidade de ter. Porque o cinzento é a duvida. Duvida de amar, pois o contrário verifica-se. Amar, amar incondicionalmente é duvidar.
Duvidar de si, dos outros, do mundo, ao passado, do presente, do futuro, do "nós" fugidio e inconstante.
E, logo, cinzento é dor.
É a dor profunda da mistura. De não ser branco, nem ser preto. De não existir definitivamente, apenas... existir.
E tu, que nem és preto nem branco, mas não és cinzento, pois és a escuridão e a luz num só, mas nada entre o meio, és tudo aquilo que resulta da dor sem realmente sentires.
Então, morre.
Morre para o mundo. Que ele morreu para ti.

Não entendo as pessoas, e às vezes pondero as minhas hipóteses de alguma vez vir a sequer começar a entender porque é que as pessoas são tão incrivelmente estúpidas. Não sei. Se calhar eu é que sou muito limitada e tenho um campo de visão muito pouco amplo, não sei, pode ser isso. Pode ser que eu é que não veja as coisas como deve ser, se calhar eu é que ando tapada, com falta de óculos, qualquer merda metafórica que queiram pensar. Pode ser que sim. Mas sinceramente, quando me sento e olho bem para as pessoas a minha volta dá-me um vontade intensa de agarrar na cabeça de algumas pessoas, e muito pouco gentilmente esfregá-las contra as paredes. Com mesmo muitíssima pouca gentileza. Não porque não gosto delas. Mais pelo contrário, pelo oposto. Porque gosto muito delas. E como gosto delas, elas enervam-me. É um fenómeno muito peculiar mas parece que o quanto mais eu gosto de uma pessoa, mais ela me irrita. E quanto mais as pessoas me irritam, mais eu gosto delas. A sério, também, acho que sou muito estúpida, por isso não faz mal chamarem-me de hipócrita, que eu não me vou importar.

Mas ao fim ao cabo, porque é que as pessoas são estúpidas, pode alguém que leia isto perguntar-se. São estúpidas porquê? Mas porque raio é que tu andas para aí a chamar os outros, coitadinhos, de parvos? Sua malvada, credo, és mesmo indecente. E eu, na minha maneira querida de responder, digo-vos porque...

As pessoas são estúpidas porque são cegas. São estúpidas porque são loucas e privadas de sensibilidade social. São estúpidas porque são do pior tipo de cego. Dos cegos que simplesmente não querem ver. São cegas. Atrasadas, retardadas e paradas no tempo, tudo em simultâneo. E oh meu deus, que vontade de lhes bater que me dá. Eu sou pacifista, muito hippie, no fundo mas mesmo no fundo do coração, mas se as pessoas estúpidas deste mundo simplesmente parassem de sair à rua, e passassem todas a ser agorafóbicas, a sério, eu morria feliz. Eu mudava-me para a China, criava crianças abandonadas pelo governo e abria uma loja de coca-colas, qualquer coisa assim. Era uma pessoa realizada.

Cambada de gente estúpida.

Sempre achei doidos interessantes. Sempre vi um certo humor (vá, distorcido) na forma como vêem o mundo. E pergunto-me como é que o que se passa a frente deles lhes parece. Se vêem as cores de outra cor, se vêem o céu mais ou menos azul do que eu, ou outra pessoal qualquer. O que os torna dementes e a mim não?

Não sei, sinceramente, não faço a menor, a mais mínima, a mais pequena ideia. Não sei e não se entende. Chamem-me doida mas sempre quis ser demente. Ou considerada como tal. Não posso explicar porque, também porque não quero, mas sempre o quis. Acho a vida e o mundo tão incrivelmente desinteressantes que suponho que ser lunático deve ter o seu charme. Nada é o que é, e tudo nos faz ou extremamente felizes ou extremamente zangados. Não existem coisas como intermédios depressivos ou pausas de lentidão emocionalmente frustrantes. Tudo é extremo, tudo vai do oito ao oitenta, e tudo é vivido, numa exaustão emocional contínua e profunda. Ou seja, tudo é simples. E se tudo é simples, nada é complicado. E eu não gosto de complicações. Deixam-me fora de mim. Mas enfim. Não entendo o medo da loucura. Somos todos meio loucos, no fundo, admiro aqueles que por alguma falta de travão social o deixam mostrar. Excêntricos, chamem-lhe o que quiserem. Ao menos os filhos da puta são interessantes.