duas crianças e um pau. duas crianças e uma bola, duas crianças e um gato, duas crianças e muitas coisas entre si.
cada criança vai puxando a brasa a sua sardinha, e cada um parece cada vez mais idiota. a idade não perdoa, foda-se.
Monday, 26 July 2010
Thursday, 17 June 2010
for a quick epiphany:
i realized that the reason why i would never, ever love the new harry potter theme park is because it would force the child within, the one who is a hardcore believe in magic and in anything that comes with the so beloved soundtrack i know by heart, that it's not real. and it was my mental home for so many years, that the vision of what i have in my heart and mind to be destroyed so cruelly by reality would crush me. well, a bit, anyway. i wish magic was real, and now, as always, i still believe i'll ride out of here in a blue vintage car.
i realized that the reason why i would never, ever love the new harry potter theme park is because it would force the child within, the one who is a hardcore believe in magic and in anything that comes with the so beloved soundtrack i know by heart, that it's not real. and it was my mental home for so many years, that the vision of what i have in my heart and mind to be destroyed so cruelly by reality would crush me. well, a bit, anyway. i wish magic was real, and now, as always, i still believe i'll ride out of here in a blue vintage car.
Tuesday, 1 June 2010
Kimono
Enrosco-me no meu kimonozinho azulão, e vou reconfortando a minha própria alma. Adorei este kimono só pelo facto de ser o oposto do da minha irmã. O dela era absolutamente precioso. Branco, quase transparente, delicado e com um lindíssimo dragão. Na minha imaginação, claro, está soberbo de flores bordadas à mão com delicadeza, e é o kimono perfeito, o meu kimono perfeito. Mas ela é que o tem. O meu é de um tecido mais pesado, ainda que continue a ser leve, é de um azul forte, do tipo de azul que se aceita em verniz para miúdas de doze anos e para meias dos anos 80. Mas, isto nada haver tem com o tópico, realmente. Suspiro. Digo me que está tudo bem, que eu percebo as motivações, justificações. Vou acompanhando o som do macaco que bate palmas na minha cabeça. Palmas ou dois pratos, daqueles que são quase instrumentos musicais mas nenhum musico a sério toca (já alguém conheceu um tocador de pratos? é como um tocador de xilofone. a sua existência é meramente teórica). Vai batendo, paff paff paff, e o resto do meu corpo vai acompanhando o ritmo da musica, silenciosa (porque não existe fora da minha cabeça) e eu vou revendo as imagens na minha cabeça, como que se a ver um álbum de fotos muito, muito desagradáveis. Nostalgia nunca foi um grande hobby (mentirosamentirosamentirosamentirosamentirosamentirosa). Vai, vai, vai... vai batendo na mesma tecla, digo a mim própria, vai batendo e pode ser que um dia, entendendo que o que fazes é errado, chegues ao porque de seres tão comum, tão vendida às ideias que os filmes e a televisão te vão vendendo. Sentas-te e vais-te empanturrando com comida de plástico, que te entope o estômago com ácidos, que te corrói as veias, que as vai enchendo de gordura, amarelada e flácida, que te vai deixando cada vez mais mole. Sentas-te à janela, olhando o mundo com olhos vidrados e mortos, enquanto fumas um e mais outro cigarro, e depressa fumas um maço, dois maços, três maços, até já não sentires o fundo da tua garganta, e imaginas os teus pulmões a morrerem lentamente, como vitimas de um fogo invisível (arde mas não se vê, como o fogo poético), e os teus pulmõezinhos vão gritando de surdina, gemendo que nem crianças para que pares, mas tu estás a ver o carros passar, anestesiada pelos moralmente repreensíveis vícios de nicotina e seja lá o que metem no tabaco. Ai, que vida.
Não que seja complicada, nada disso. É assim, muito simples. Tanto quando a experiência me permite e tanto quando a inteligência me deixa assimilar, não é que haja quem não saiba o que corre mal, é só que gostamos de sofrer. Todos somos masoquistas, de uma forma ou de outra. Mas, ainda assim, tanto faz porque tudo, de uma forma ou de outra (nem que seja por exclusão de partes), nos faz sofrer. Não por que assim tenha que o ser, apenas porque assim o é. Tudo está bem quando acaba bem, e nos entramos em cena, de armas e bagagens, desistimos do sonho, e lá vamos nos, rua fora, com milhares de cenas dos tais filmes (malvados) na cabeça, que nos dizem que sem drama a nossa vida não funciona, simplesmente deixaria de fazer sentido. Ser feliz? Não! Nunca! Só se pode ser feliz depois de muito sofrer, e tem que ser por pouco tempo, ou então ai deixamos de saber "apreciar o que é bom, porque já não conhecemos o mau".
Congelo, sinto a estômago a morrer um bocadinho. Sinto-me tentada a voltar atrás, só para fazer este conflito ir-se embora. Mas sei que isso só me iria trazer mais conversas, mais sentimentalismo, mais e mais e mais e mais. Sentindo o sugar das minhas energias emocionais e o escapulir da minha racionalidade por entre os meus dedos, vou negando beijos com carícias, e dizendo que no fundo, o mundo está melhor sem mim. Devia ter sido actriz.
Não que seja complicada, nada disso. É assim, muito simples. Tanto quando a experiência me permite e tanto quando a inteligência me deixa assimilar, não é que haja quem não saiba o que corre mal, é só que gostamos de sofrer. Todos somos masoquistas, de uma forma ou de outra. Mas, ainda assim, tanto faz porque tudo, de uma forma ou de outra (nem que seja por exclusão de partes), nos faz sofrer. Não por que assim tenha que o ser, apenas porque assim o é. Tudo está bem quando acaba bem, e nos entramos em cena, de armas e bagagens, desistimos do sonho, e lá vamos nos, rua fora, com milhares de cenas dos tais filmes (malvados) na cabeça, que nos dizem que sem drama a nossa vida não funciona, simplesmente deixaria de fazer sentido. Ser feliz? Não! Nunca! Só se pode ser feliz depois de muito sofrer, e tem que ser por pouco tempo, ou então ai deixamos de saber "apreciar o que é bom, porque já não conhecemos o mau".
Congelo, sinto a estômago a morrer um bocadinho. Sinto-me tentada a voltar atrás, só para fazer este conflito ir-se embora. Mas sei que isso só me iria trazer mais conversas, mais sentimentalismo, mais e mais e mais e mais. Sentindo o sugar das minhas energias emocionais e o escapulir da minha racionalidade por entre os meus dedos, vou negando beijos com carícias, e dizendo que no fundo, o mundo está melhor sem mim. Devia ter sido actriz.
Thursday, 25 March 2010
A necessidade de tudo saber e de nada deixar por dizer cria uma espécie de vazio rotineiro na vida das pessoas que não controlam as suas excessividades. Não é um vazio sem sentido, algo que vem de repente e de rajada (como o vento frio do Inverno), mas um vazio preenchido por silêncios longos e desconfortáveis, quando já quase tudo o que havia a dizer naquele espaço de tempo, foi dito. Quantos mais penso nisso, mais concordo comigo mesma. As pessoas foram feitas com temporizadores, não consigo não acreditar nisso. Nem duvidar, sequer. Fomos todos criados com tabelas periódicas, que biologicamente entranham na nossa mente os nossos horários pessoais, os nossos intervalos e em que condições podemos escaparmos-nos de uma ou outra sessão mais penosa e longa. Os nossos pequenos botões(pontos fracos, quiçá). Como todas as escapadelas do convencional, estas criam lacunas, um ou outro vórtex inconstante, onde ou o barco afunda ou resiste. Quando o interesse desaparece, tudo foge...
Monday, 22 March 2010
Quem espera, desespera. Não sei se a ideia é exclusivamente portuguesa, mas vou arriscar e dizer que sim. Que sentimento tão malvado, que sentir do corpo tão cruel... O de esperar, não ver e não querer ver, apenas sofrer pelo que não vem. E as palavras? Deus! Ai essas, que rasgam sem tocar e que tudo tornam em seja o que for que queres que eu sinta. Indecisão, é crónica, mas esse mal é de família, já dizia o meu tio. E lá vão eles... em fila indiana, certinhos e arrumados, que andam e andam...
Sentimento de quem se sente deslocado, e quem não sabe o que diz. Não apenas consoante aquilo que se possa pensar, mas sobre tudo. É um estar deslocado, indefeso e inconstante em todas as constantes necessárias. Que segurança? Essa não existe, nunca a vi. Nunca a vi chegar, por isso não sei se alguma vez partiu. Aperta, desaperta, e como bate, desenfreado, com o arfar de quem mal consegue chegar aonde nem devia estar, quanto menos aonde devia.
Sentimento de quem se sente deslocado, e quem não sabe o que diz. Não apenas consoante aquilo que se possa pensar, mas sobre tudo. É um estar deslocado, indefeso e inconstante em todas as constantes necessárias. Que segurança? Essa não existe, nunca a vi. Nunca a vi chegar, por isso não sei se alguma vez partiu. Aperta, desaperta, e como bate, desenfreado, com o arfar de quem mal consegue chegar aonde nem devia estar, quanto menos aonde devia.
Tuesday, 2 March 2010
a short drop and a sudden stop
Giro e giro e giro e giro mais uma vez. Giro os dedos em volta do tecido, enrugando, alisando e voltando a alisar o tecido que não estava em muita necessidade de ser alisado, mas a quem é que isso interessa? Fico nervosa, e com vergonha (tão pouco típico, tão pouco típico!) e numa tentativa de expulsar algumas palavras, que formam sempre perguntas (eu gosto de fazer perguntas), levanto os olhos do chão ou desvio-os das paredes e pergunto qualquer coisa banal, enquanto lanço novamente os olhos na direcção de um tudo nada que me distraia da pessoa a quem fiz a pergunta. Pareço uma criança, sorrio e deixo-a pensar que sou apenas idiota. Gostava de lhe dizer que sou nada idiota mas muito atrapalhada. Faz alguma diferença. Gaguejando, vou sorrindo sem saber o que dizer. É reflexo, um a vontade sem vontade, sorrindo para tudo e para nada, não percebo bem. Passo a língua pelos dentes, pelo céu da boca, e mordisco os lábios. É fácil ver se estou preocupada ou tímida. Alias, sou um livro aberto quando me conhecem, logo, escusam de o fazer. Mordo o canto da boca, passo a mão pela testa, coço a sobrancelha e o lado da cara. As caras, novas e desconhecidas, não familiares, não me causam deja vus, nunca as vi na rua. Eu cá não reconheço ninguém e ninguém me parece reconhecer. Fico sempre sem saber se isso é uma coisa boa ou má. Passando as mãos na calçada, questiono-me. A corrente de perguntas, de duvidas, de comentários e de ideias vai enchendo e enchendo o meu interior, até que parece que é tarde de mais, e são demasiadas perguntas. Quero saber tudo, a toda a hora, de todas as formas, com todos os pontos de vista. Mas sou lenta de mais para tentar. E depois fico frustrada. E ressinto-me. E não quero isso.
Olho-o nos olhos. Ele olha-me sem rodeios. Encara me cara a cara, com olhos que nem me desafiam, nem me intimidam mas que me estudam. Não se devia cair no erro ou na ideia de que ele sabe que estou ali à tentativa. Não sei nada de fome nem de miséria. O pouco que sei de nada me serve ali, enquanto me fazem rir com piadas obscenas ("sabe o que é que quer dizer obsceno?"). Tem um barrete azul. Notei logo o barrete azul. Tenho fome e tenho frio. Mas enquanto vou ouvindo história da moça do Pingo Doce na Quinta das Conchas, vou pasmando para as pessoas a minha volta (desliga, desliga, desliga, desliga). Pequenos, altos, magros, gordos, feios, bonitos... Misturam-se todos, e vou-me entretendo a criar-lhes histórias. Quais são órfãos, uns pequenos e enfadonhos Olivers? E quais são, sem ninguém saber, prostitutas, ou vendem droga? Claro que o meu panorama enche-se de dramas e de coisas que me interessam. Sentir sempre, de todas as formas, já dizia o outro. Sei que é de brandar aos céus e de me chamar de louca, mas viver na pele dele, do Fernando, por dois dias deve ser interessante. Diz que não toma banho a quatro meses, que quem toma banho são os porcos. Já sem metade dos dentes, os que restam são algo entre o amarelo e o preto, muito coloridos, certamente interessantes e pouco higiénicos. Sem pedir aprovação, lança uma corrente de piadas, revira o olhos, nega e afirma, tudo diz e nada quer, só fala, não come, e entretêm-se com advinhas. Achei-lhe piada.
O que nos leva a ir viver para a rua, pergunto-me. Diz me uma na roda que acha fantástico que tenha encontrado um homem inteligente entre eles. Honestamente, acho que de fantástico isso não tem nada. Só os iluminados é que desistem de viver com os outros, só pode...
Olho-o nos olhos. Ele olha-me sem rodeios. Encara me cara a cara, com olhos que nem me desafiam, nem me intimidam mas que me estudam. Não se devia cair no erro ou na ideia de que ele sabe que estou ali à tentativa. Não sei nada de fome nem de miséria. O pouco que sei de nada me serve ali, enquanto me fazem rir com piadas obscenas ("sabe o que é que quer dizer obsceno?"). Tem um barrete azul. Notei logo o barrete azul. Tenho fome e tenho frio. Mas enquanto vou ouvindo história da moça do Pingo Doce na Quinta das Conchas, vou pasmando para as pessoas a minha volta (desliga, desliga, desliga, desliga). Pequenos, altos, magros, gordos, feios, bonitos... Misturam-se todos, e vou-me entretendo a criar-lhes histórias. Quais são órfãos, uns pequenos e enfadonhos Olivers? E quais são, sem ninguém saber, prostitutas, ou vendem droga? Claro que o meu panorama enche-se de dramas e de coisas que me interessam. Sentir sempre, de todas as formas, já dizia o outro. Sei que é de brandar aos céus e de me chamar de louca, mas viver na pele dele, do Fernando, por dois dias deve ser interessante. Diz que não toma banho a quatro meses, que quem toma banho são os porcos. Já sem metade dos dentes, os que restam são algo entre o amarelo e o preto, muito coloridos, certamente interessantes e pouco higiénicos. Sem pedir aprovação, lança uma corrente de piadas, revira o olhos, nega e afirma, tudo diz e nada quer, só fala, não come, e entretêm-se com advinhas. Achei-lhe piada.
O que nos leva a ir viver para a rua, pergunto-me. Diz me uma na roda que acha fantástico que tenha encontrado um homem inteligente entre eles. Honestamente, acho que de fantástico isso não tem nada. Só os iluminados é que desistem de viver com os outros, só pode...
Saturday, 6 February 2010
Sem noticias de Deus - ii
Sentiu o estalar dos seus dedos, esperando um segundo antes de voltar a passar a sua ponta pela ranhura da chave. Empurrando levemente a fechadura, sentiu a madeira da porta estalar e o ruído seco da mola trancada a bater contra a madeira. Não percebia muito de fechaduras, realmente não eram um tópico que lhe soasse assim muito interessante, mas desde a algum tempo que investia numa fechadura eficaz. Concentrava-se na fechadura com uma atenção impressionante para quem quer que por lá passasse (ninguém iria lá passar visto que ele vivia no quinto andar de uma casa, numa ponta remota e quieta de Lisboa, sem mais ninguém no largo apartamento que lá passasse) iria achar quase desconcertante a forma como teimava em ignorar o que se passava à sua volta. Estava no lado de fora do quinto andar, a trancar as portas para o seu apartamento. Bem, tudo aquilo era a sua casa, mas o quinto andar era o seu apartamento. Atrás de si havia outra porta que dava directamente para uma ala do apartamento que ele utilizava como a sala de não ter nada, ou seja, não acontecia lá nada, não havia lá nada, nem era necessária para coisa nenhuma, mas existia, e de certa forma, isso era confortável. Só tinha reparado o quanto gostava dela assim quando a mãe haveria insistido em trazer-lhe as ultimas caixas de coisas suas que tinha na sua casa de infância, coisas que ele já não via ás séculos e que não lembrava a ninguém ainda ter, mas lá ela lhas tinha trazido e enfiado no sala de não ter nada. Quanto tinha chegado a casa, e a tinha visto sentada no meio a espaçosa sala, espaçosa pelo menos para cima, sendo que era dos quartos mais pequenos do apartamento, sentiu um calor nas entranhas que o obrigou a esperar aquele dez segundos, enquanto contava de dez a um, numa espécie de hipnose auto-imposta. Claro que uma tentativa calma de explicar o porque de não querer nada lá tinha falhado ("És louco, só podes ser louco! Onde já se viu uma sala de não ter nada, tens é tempo demais para não fazeres nada, é o que é! Se trabalhasses, não eras tão idiota!") e logo tinha passado, no seu jeito amigável, para ignorar a mãe, e arrastar a tralha para o corredor, e prossegui ignorando os protestos da progenitora quando a pós fora de casa, descendo os cinco andares, e lhe retirou a chave das mãos, diplomaticamente dizendo-lhe que estava desconvidada a servir-se da sua casa como sua. Não que a sua mãe alguma vez tenha estado mesmo convidada para tal fazer, mas não interessava, o convite formal havia sido desfeito.
Não o incomodou as três semanas sem uma palavra ou um bip no telemóvel. Alias, foram três óptimas semanas, de descanso. Não queria saber de ninguém. Não era uma pessoa agradável, ainda que continuasse a ser uma pessoa. Mas, enfim. Finalmente, a terceira fez que sentiu o som seco da mola, relaxou e virou-se para as escadas, para as descer. Numa mão uma meia dúzia de sacos de plástico (amigo do ambiente) e na outra, as chaves do apartamento que iam sendo postas no bolso. Desceu ruidosamente, mas não havia mais ninguém para ouvir o seu ruído, por isso era como se não existisse, e passou pelos restantes andares sem notar a diferença. O seu ainda tinha um ar de habitável, a janela estava iluminada pela luz do candeeiro de rua, e tinha uma planta que a mãe insistia em manter viva, mesmo que através de exigencias e chantagens pelo telefone. Os outros andares? Estes estavam fechados, as cortinas puxadas, e a escuridão era imensa, e a luz vinha sabe-se lá de onde. Desceu, desceu, desceu. As escadas em caracol quase, com o som da madeira a guinchar e protestar debaixo do seu peso, não muito considerável, a medida que evitava os sítios partidos com um a vontade de quem muito sobe e desce, mais de memoria do que de pratica. Tinha lá vivido em pequeno, e coisas dessas não se esquecem.
Chegou ao ultimo andar, e sem dar a si próprio a hipóteses de desistir (estava farto de comer sardinha em lata), saiu à rua, e batendo a porta atrás de si, imaginado o eco de silencio que se teria feito dentro da enorme e vazia casa. No cimo das pequenas escadas que davam para o portão, olhou em volta. Do outro lado da rua, uma senhora idosa caminhava com um rapaz muito, mesmo muito mais novo. Considerou se seria o neto, mas parecia que a modernidade das coisas até a ele já o afectavam, e ponderou se não seria um rapaz novo a abusar da bondade e necessidade de uma idosa. Feia como era, de lábios pintados de cor-de-laranja avermelhado (mas que cores de batons fazem, meu Deus...), com o seu cabelo branco amarelado, talvez de falta de água ou excesso dela que o tinha enferrujado como um pedaço de metal usado a demasiado tempo, e apertava a mão do rapaz como que se da sua vida dependesse o quão forte era o aperto. O rapaz, nem lhe via a cara, na escuridão do começo de noite, mas parecia lhe apenas mais um rapaz, igual a tantos outros, alto, de cabelo curto e com um ar moderno e indiferente a tantos outros. O ar estava um pouco frio, daquele frio que ataca o interior dos pulmões. Um ar gélido de noite. Esfregando a barba, desce os degraus e inicia o caminho que já faz sem pensar nisso. Vai todo o caminho sentido o gelo da noite em volta do corpo. Não leva roupa particularmente quente, apenas uma t-shirt e um casaco fino, que mais o arrefece do que aquece, quando lhe toca na pele. Vai com as mãos nos bolsos, sentido a sua pulsação, sem nenhum pensamento em concreto, com a mente lisa, e vazia, cheia de varias coisas e de nada, como muitas vezes nos todos nos encontramos pelo dia fora, naqueles momentos em que se tentamos pensar naquilo que nos ocorria na altura, não nos conseguimos lembrar, porque mesmo que fosse algo de importante, único e perfeito, para nos aquele momento não passou de algo fugaz e pouco importante.
Acordou do transe a tempo de olhar para o lado e ver um carro passar. Registou que já podia atravessar, e assim o fez, entrando no domínio do supermercado. Era um supermercado igual aos outros. Alias, não havia nada naquela vizinhança que fosse particularmente merecedora de atenção, não por fora pelo menos. As pessoas eram iguais as outras de uma freguesia mais ao lado, tinham as mesmas conversas, tinham o mesmo tipo de ideias e de passatempos, e criavam mais uma pequena comunidade com todos os estereótipos que alguém de outro sitio espera encontrar. A senhora da mercearia continua a ser gorda e barulhenta, o marido continua a ser pequeno e franzido, sempre um pouco intimidado com toda gente e em especial com a mulher. O dono da loja de ferragens parecia estar constantemente com medo de água, o dono do café local continuava a ser um idiota com cara de pedófilo, e eram sempre assim, em todo o lado. E não era, portante, de estranhar que o supermercado, uma superfície grande e de metal, fosse igual a tantas outras. Passando pelos tares ou quatro carros sempre presentes no supermercado, e entrando na loja, foi directo retirar um carrinho, que era mais um carrão, mas pronto, e entrou na parte comercial.
Os corredores imediatamente no seu campo de visão estavam vazios. Há algo de bizarro mas interessante em supermercados a noite. O vazio é quase que oco, e estamos sempre a espera que algo aconteça. Era uma terça feira, as pessoas estavam provavelmente em casa a amaldiçoar o começo da semana ainda, e como era um daqueles dias que não é meio, nem fim, nem principio do mês, não haveria lá ninguém que pudesse observar com um ar de desprezo ou curiosidade o pintor, que estava coberto de tinta e tinha aquele ar de quem não via um bom dia de sol a longos, longos tempos. Passou devagar no corredor dos congelados, abrindo e fechando, observando e ponderando. Tinha de comer. Não queria, mas tinha. Não lhe apetecia, era um esforço demasiado inqui9etante para o satisfazer, a não ser nos momentos em que só conseguia pensar em comida. Retirou algumas caixas de gelado, das marcos finas, e algumas caixas de pizza, de comida estrangeira. Lentamente empurrou o carrinho para a zona da fruta. Não muito longe de si, estava a senhora com o rapaz. O brilho das luzes falsas do corredor da fruta contratavam desagradavelmente contra a pele branca e leitosa da velha, o seu batom cor-de-laranja avermelhando tornando-se ainda menos atraente. O rapaz, afinal, era mais novo do que parecia por trás, com a cara com aquele ar de inocência idiota e pouco atraente, um bigode de virgem e com uma postura desajeitada, própria de um corpo ainda em desenvolvimento e com pouca graciosidade. A mão enrugada e pálida, com tonas de castanho e cinzento as manchas, estavam a centímetros das laranjas, enquanto inquiria com a cara a aproximar-se também, como que se já não as visse bem, o que provavelmente seria o caso. Observando-os por um segundo, não sentia nada, apenas erigia as sobrancelhas ligeiramente em curiosidade mas não da simpática, antes de virar a cara de começar a recolher as mangas sintéticas, e os morangos de estufa, e os frutos vermelhos que lhe apreciam a frente. Era o que gostava. Isso e kiwis, só queria isso. Sumarentos, verdes, com um toque acido e amargo, a sensação do interior mais denso. Eram bons.
Não queria mais fruta, mas parou a observar os seus pes no espelho. Mexeu os para direita, e depois para a esquerda. E depois ao mesmo tempo. E depois, durante uns minutos, divertiu-se a coreografar os seus movimentos, qual uma criança que vê algo novo como que se divertir. Talvez o silencio ou um sinal imperceptível o tenha avisado, então olhou para trás, e viu uma mulher jovem na parte dos congelados a observa-lo. Sabem aquele momento em que estamos não interessados naquilo que estamos a ver, que deixamos de ver que é uma pessoa mas passamos a ver o que seja que esta a acontecer como uma peça de teatro, e ignoramos que não o é? E que demoramos um ou dois segundos a perceber que não é, efectivamente, uma peça de teatro, e que a outra pessoa já nos apanhou a vê-la, e que ao contraria da peça em que no sentamos a observar os outros sem vergonha porque é esse o objectivo (demonstramos uma realidade pouco provável ou se provável, quer seria muito menos interessante na realidade), a outra pessoa poderá pensar e interpretar a nossa observação como mil e uma coisas? Foi o que ela sentiu, e demorou uns segundos a perceber que o homem que estava a dançar a frente da fruta a tinha apanhado. Corou, ela corou e olhou para baixo, sentindo as suas faces a ficarem frias, e o corpo tonto, um sentimento parvo. O seu cabelo caiu-lhe em frente da cara, graças a Deus. Passando as mãos nervosamente pela cara, fechou a tampa e nem tirou os camarões que queria, agarrando o seu cesto, tentando não olhar para a figura que tinha visto. O seu cabelo escuro e liso tapavam a sua cara, pequena e com um leve arzinho de rato(para os que gostam de eufemismos).
Não tirando os olhos de cima dela, fixou o seu nervosismo com pouco interesse. Viu-a caminha devagar, entretendo-se a olhar sabe se para lá. Desviou o olhar, enquanto a figura feminina, vestida com um comprido vestido fora-de-moda azul as riscas, e empurrou o seu próprio carrinho para longe dos espelhos da fruta. Entrou nos corredores e saiu, e dali a meia hora tinha o que queria. Mais minguem viu e também não procurou. Aceitava quem vinha com pouco interesse. Chegou a única caixa aberta e descarregou tudo. Fruta, comida, tinha carne, carne de porco, carne de vaca, carne de galinha ou galo, tinha queijo, amanteigado, francês, do velho, do novo, fresco, antigo, curado, de cabra, tinha enchidos, presuntos, muito presunto, tinha vinho, vinho daqui e da li, do tinto, do verde, do rosé para a mãe enfrascar quando lá ia, tinha whisky, muito whisky, tinha vodka e tinha tiquila para as noites interessantes de filmes e de pintura, tinha panos novos que usava sempre ao pintar, tinha laminas, champô, tinha pastilhas, tinha alguma revistas, alguns livro idiotas que vinham ao lado das revistas, tinha cadernos e canetas que estava sempre a perder, tinha produtos de limpeza, tinha produtos para cozinhar, tinha de tudo um pouco, típico de quem evitava sair de casa para compras. Pagou, e parou a frente da caixa, já do outro lado, pasmando. Tinha uns trinta sacos, como os ia levar para casa?
Não o incomodou as três semanas sem uma palavra ou um bip no telemóvel. Alias, foram três óptimas semanas, de descanso. Não queria saber de ninguém. Não era uma pessoa agradável, ainda que continuasse a ser uma pessoa. Mas, enfim. Finalmente, a terceira fez que sentiu o som seco da mola, relaxou e virou-se para as escadas, para as descer. Numa mão uma meia dúzia de sacos de plástico (amigo do ambiente) e na outra, as chaves do apartamento que iam sendo postas no bolso. Desceu ruidosamente, mas não havia mais ninguém para ouvir o seu ruído, por isso era como se não existisse, e passou pelos restantes andares sem notar a diferença. O seu ainda tinha um ar de habitável, a janela estava iluminada pela luz do candeeiro de rua, e tinha uma planta que a mãe insistia em manter viva, mesmo que através de exigencias e chantagens pelo telefone. Os outros andares? Estes estavam fechados, as cortinas puxadas, e a escuridão era imensa, e a luz vinha sabe-se lá de onde. Desceu, desceu, desceu. As escadas em caracol quase, com o som da madeira a guinchar e protestar debaixo do seu peso, não muito considerável, a medida que evitava os sítios partidos com um a vontade de quem muito sobe e desce, mais de memoria do que de pratica. Tinha lá vivido em pequeno, e coisas dessas não se esquecem.
Chegou ao ultimo andar, e sem dar a si próprio a hipóteses de desistir (estava farto de comer sardinha em lata), saiu à rua, e batendo a porta atrás de si, imaginado o eco de silencio que se teria feito dentro da enorme e vazia casa. No cimo das pequenas escadas que davam para o portão, olhou em volta. Do outro lado da rua, uma senhora idosa caminhava com um rapaz muito, mesmo muito mais novo. Considerou se seria o neto, mas parecia que a modernidade das coisas até a ele já o afectavam, e ponderou se não seria um rapaz novo a abusar da bondade e necessidade de uma idosa. Feia como era, de lábios pintados de cor-de-laranja avermelhado (mas que cores de batons fazem, meu Deus...), com o seu cabelo branco amarelado, talvez de falta de água ou excesso dela que o tinha enferrujado como um pedaço de metal usado a demasiado tempo, e apertava a mão do rapaz como que se da sua vida dependesse o quão forte era o aperto. O rapaz, nem lhe via a cara, na escuridão do começo de noite, mas parecia lhe apenas mais um rapaz, igual a tantos outros, alto, de cabelo curto e com um ar moderno e indiferente a tantos outros. O ar estava um pouco frio, daquele frio que ataca o interior dos pulmões. Um ar gélido de noite. Esfregando a barba, desce os degraus e inicia o caminho que já faz sem pensar nisso. Vai todo o caminho sentido o gelo da noite em volta do corpo. Não leva roupa particularmente quente, apenas uma t-shirt e um casaco fino, que mais o arrefece do que aquece, quando lhe toca na pele. Vai com as mãos nos bolsos, sentido a sua pulsação, sem nenhum pensamento em concreto, com a mente lisa, e vazia, cheia de varias coisas e de nada, como muitas vezes nos todos nos encontramos pelo dia fora, naqueles momentos em que se tentamos pensar naquilo que nos ocorria na altura, não nos conseguimos lembrar, porque mesmo que fosse algo de importante, único e perfeito, para nos aquele momento não passou de algo fugaz e pouco importante.
Acordou do transe a tempo de olhar para o lado e ver um carro passar. Registou que já podia atravessar, e assim o fez, entrando no domínio do supermercado. Era um supermercado igual aos outros. Alias, não havia nada naquela vizinhança que fosse particularmente merecedora de atenção, não por fora pelo menos. As pessoas eram iguais as outras de uma freguesia mais ao lado, tinham as mesmas conversas, tinham o mesmo tipo de ideias e de passatempos, e criavam mais uma pequena comunidade com todos os estereótipos que alguém de outro sitio espera encontrar. A senhora da mercearia continua a ser gorda e barulhenta, o marido continua a ser pequeno e franzido, sempre um pouco intimidado com toda gente e em especial com a mulher. O dono da loja de ferragens parecia estar constantemente com medo de água, o dono do café local continuava a ser um idiota com cara de pedófilo, e eram sempre assim, em todo o lado. E não era, portante, de estranhar que o supermercado, uma superfície grande e de metal, fosse igual a tantas outras. Passando pelos tares ou quatro carros sempre presentes no supermercado, e entrando na loja, foi directo retirar um carrinho, que era mais um carrão, mas pronto, e entrou na parte comercial.
Os corredores imediatamente no seu campo de visão estavam vazios. Há algo de bizarro mas interessante em supermercados a noite. O vazio é quase que oco, e estamos sempre a espera que algo aconteça. Era uma terça feira, as pessoas estavam provavelmente em casa a amaldiçoar o começo da semana ainda, e como era um daqueles dias que não é meio, nem fim, nem principio do mês, não haveria lá ninguém que pudesse observar com um ar de desprezo ou curiosidade o pintor, que estava coberto de tinta e tinha aquele ar de quem não via um bom dia de sol a longos, longos tempos. Passou devagar no corredor dos congelados, abrindo e fechando, observando e ponderando. Tinha de comer. Não queria, mas tinha. Não lhe apetecia, era um esforço demasiado inqui9etante para o satisfazer, a não ser nos momentos em que só conseguia pensar em comida. Retirou algumas caixas de gelado, das marcos finas, e algumas caixas de pizza, de comida estrangeira. Lentamente empurrou o carrinho para a zona da fruta. Não muito longe de si, estava a senhora com o rapaz. O brilho das luzes falsas do corredor da fruta contratavam desagradavelmente contra a pele branca e leitosa da velha, o seu batom cor-de-laranja avermelhando tornando-se ainda menos atraente. O rapaz, afinal, era mais novo do que parecia por trás, com a cara com aquele ar de inocência idiota e pouco atraente, um bigode de virgem e com uma postura desajeitada, própria de um corpo ainda em desenvolvimento e com pouca graciosidade. A mão enrugada e pálida, com tonas de castanho e cinzento as manchas, estavam a centímetros das laranjas, enquanto inquiria com a cara a aproximar-se também, como que se já não as visse bem, o que provavelmente seria o caso. Observando-os por um segundo, não sentia nada, apenas erigia as sobrancelhas ligeiramente em curiosidade mas não da simpática, antes de virar a cara de começar a recolher as mangas sintéticas, e os morangos de estufa, e os frutos vermelhos que lhe apreciam a frente. Era o que gostava. Isso e kiwis, só queria isso. Sumarentos, verdes, com um toque acido e amargo, a sensação do interior mais denso. Eram bons.
Não queria mais fruta, mas parou a observar os seus pes no espelho. Mexeu os para direita, e depois para a esquerda. E depois ao mesmo tempo. E depois, durante uns minutos, divertiu-se a coreografar os seus movimentos, qual uma criança que vê algo novo como que se divertir. Talvez o silencio ou um sinal imperceptível o tenha avisado, então olhou para trás, e viu uma mulher jovem na parte dos congelados a observa-lo. Sabem aquele momento em que estamos não interessados naquilo que estamos a ver, que deixamos de ver que é uma pessoa mas passamos a ver o que seja que esta a acontecer como uma peça de teatro, e ignoramos que não o é? E que demoramos um ou dois segundos a perceber que não é, efectivamente, uma peça de teatro, e que a outra pessoa já nos apanhou a vê-la, e que ao contraria da peça em que no sentamos a observar os outros sem vergonha porque é esse o objectivo (demonstramos uma realidade pouco provável ou se provável, quer seria muito menos interessante na realidade), a outra pessoa poderá pensar e interpretar a nossa observação como mil e uma coisas? Foi o que ela sentiu, e demorou uns segundos a perceber que o homem que estava a dançar a frente da fruta a tinha apanhado. Corou, ela corou e olhou para baixo, sentindo as suas faces a ficarem frias, e o corpo tonto, um sentimento parvo. O seu cabelo caiu-lhe em frente da cara, graças a Deus. Passando as mãos nervosamente pela cara, fechou a tampa e nem tirou os camarões que queria, agarrando o seu cesto, tentando não olhar para a figura que tinha visto. O seu cabelo escuro e liso tapavam a sua cara, pequena e com um leve arzinho de rato(para os que gostam de eufemismos).
Não tirando os olhos de cima dela, fixou o seu nervosismo com pouco interesse. Viu-a caminha devagar, entretendo-se a olhar sabe se para lá. Desviou o olhar, enquanto a figura feminina, vestida com um comprido vestido fora-de-moda azul as riscas, e empurrou o seu próprio carrinho para longe dos espelhos da fruta. Entrou nos corredores e saiu, e dali a meia hora tinha o que queria. Mais minguem viu e também não procurou. Aceitava quem vinha com pouco interesse. Chegou a única caixa aberta e descarregou tudo. Fruta, comida, tinha carne, carne de porco, carne de vaca, carne de galinha ou galo, tinha queijo, amanteigado, francês, do velho, do novo, fresco, antigo, curado, de cabra, tinha enchidos, presuntos, muito presunto, tinha vinho, vinho daqui e da li, do tinto, do verde, do rosé para a mãe enfrascar quando lá ia, tinha whisky, muito whisky, tinha vodka e tinha tiquila para as noites interessantes de filmes e de pintura, tinha panos novos que usava sempre ao pintar, tinha laminas, champô, tinha pastilhas, tinha alguma revistas, alguns livro idiotas que vinham ao lado das revistas, tinha cadernos e canetas que estava sempre a perder, tinha produtos de limpeza, tinha produtos para cozinhar, tinha de tudo um pouco, típico de quem evitava sair de casa para compras. Pagou, e parou a frente da caixa, já do outro lado, pasmando. Tinha uns trinta sacos, como os ia levar para casa?
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