Thursday, 25 March 2010
A necessidade de tudo saber e de nada deixar por dizer cria uma espécie de vazio rotineiro na vida das pessoas que não controlam as suas excessividades. Não é um vazio sem sentido, algo que vem de repente e de rajada (como o vento frio do Inverno), mas um vazio preenchido por silêncios longos e desconfortáveis, quando já quase tudo o que havia a dizer naquele espaço de tempo, foi dito. Quantos mais penso nisso, mais concordo comigo mesma. As pessoas foram feitas com temporizadores, não consigo não acreditar nisso. Nem duvidar, sequer. Fomos todos criados com tabelas periódicas, que biologicamente entranham na nossa mente os nossos horários pessoais, os nossos intervalos e em que condições podemos escaparmos-nos de uma ou outra sessão mais penosa e longa. Os nossos pequenos botões(pontos fracos, quiçá). Como todas as escapadelas do convencional, estas criam lacunas, um ou outro vórtex inconstante, onde ou o barco afunda ou resiste. Quando o interesse desaparece, tudo foge...
Monday, 22 March 2010
Quem espera, desespera. Não sei se a ideia é exclusivamente portuguesa, mas vou arriscar e dizer que sim. Que sentimento tão malvado, que sentir do corpo tão cruel... O de esperar, não ver e não querer ver, apenas sofrer pelo que não vem. E as palavras? Deus! Ai essas, que rasgam sem tocar e que tudo tornam em seja o que for que queres que eu sinta. Indecisão, é crónica, mas esse mal é de família, já dizia o meu tio. E lá vão eles... em fila indiana, certinhos e arrumados, que andam e andam...
Sentimento de quem se sente deslocado, e quem não sabe o que diz. Não apenas consoante aquilo que se possa pensar, mas sobre tudo. É um estar deslocado, indefeso e inconstante em todas as constantes necessárias. Que segurança? Essa não existe, nunca a vi. Nunca a vi chegar, por isso não sei se alguma vez partiu. Aperta, desaperta, e como bate, desenfreado, com o arfar de quem mal consegue chegar aonde nem devia estar, quanto menos aonde devia.
Sentimento de quem se sente deslocado, e quem não sabe o que diz. Não apenas consoante aquilo que se possa pensar, mas sobre tudo. É um estar deslocado, indefeso e inconstante em todas as constantes necessárias. Que segurança? Essa não existe, nunca a vi. Nunca a vi chegar, por isso não sei se alguma vez partiu. Aperta, desaperta, e como bate, desenfreado, com o arfar de quem mal consegue chegar aonde nem devia estar, quanto menos aonde devia.
Tuesday, 2 March 2010
a short drop and a sudden stop
Giro e giro e giro e giro mais uma vez. Giro os dedos em volta do tecido, enrugando, alisando e voltando a alisar o tecido que não estava em muita necessidade de ser alisado, mas a quem é que isso interessa? Fico nervosa, e com vergonha (tão pouco típico, tão pouco típico!) e numa tentativa de expulsar algumas palavras, que formam sempre perguntas (eu gosto de fazer perguntas), levanto os olhos do chão ou desvio-os das paredes e pergunto qualquer coisa banal, enquanto lanço novamente os olhos na direcção de um tudo nada que me distraia da pessoa a quem fiz a pergunta. Pareço uma criança, sorrio e deixo-a pensar que sou apenas idiota. Gostava de lhe dizer que sou nada idiota mas muito atrapalhada. Faz alguma diferença. Gaguejando, vou sorrindo sem saber o que dizer. É reflexo, um a vontade sem vontade, sorrindo para tudo e para nada, não percebo bem. Passo a língua pelos dentes, pelo céu da boca, e mordisco os lábios. É fácil ver se estou preocupada ou tímida. Alias, sou um livro aberto quando me conhecem, logo, escusam de o fazer. Mordo o canto da boca, passo a mão pela testa, coço a sobrancelha e o lado da cara. As caras, novas e desconhecidas, não familiares, não me causam deja vus, nunca as vi na rua. Eu cá não reconheço ninguém e ninguém me parece reconhecer. Fico sempre sem saber se isso é uma coisa boa ou má. Passando as mãos na calçada, questiono-me. A corrente de perguntas, de duvidas, de comentários e de ideias vai enchendo e enchendo o meu interior, até que parece que é tarde de mais, e são demasiadas perguntas. Quero saber tudo, a toda a hora, de todas as formas, com todos os pontos de vista. Mas sou lenta de mais para tentar. E depois fico frustrada. E ressinto-me. E não quero isso.
Olho-o nos olhos. Ele olha-me sem rodeios. Encara me cara a cara, com olhos que nem me desafiam, nem me intimidam mas que me estudam. Não se devia cair no erro ou na ideia de que ele sabe que estou ali à tentativa. Não sei nada de fome nem de miséria. O pouco que sei de nada me serve ali, enquanto me fazem rir com piadas obscenas ("sabe o que é que quer dizer obsceno?"). Tem um barrete azul. Notei logo o barrete azul. Tenho fome e tenho frio. Mas enquanto vou ouvindo história da moça do Pingo Doce na Quinta das Conchas, vou pasmando para as pessoas a minha volta (desliga, desliga, desliga, desliga). Pequenos, altos, magros, gordos, feios, bonitos... Misturam-se todos, e vou-me entretendo a criar-lhes histórias. Quais são órfãos, uns pequenos e enfadonhos Olivers? E quais são, sem ninguém saber, prostitutas, ou vendem droga? Claro que o meu panorama enche-se de dramas e de coisas que me interessam. Sentir sempre, de todas as formas, já dizia o outro. Sei que é de brandar aos céus e de me chamar de louca, mas viver na pele dele, do Fernando, por dois dias deve ser interessante. Diz que não toma banho a quatro meses, que quem toma banho são os porcos. Já sem metade dos dentes, os que restam são algo entre o amarelo e o preto, muito coloridos, certamente interessantes e pouco higiénicos. Sem pedir aprovação, lança uma corrente de piadas, revira o olhos, nega e afirma, tudo diz e nada quer, só fala, não come, e entretêm-se com advinhas. Achei-lhe piada.
O que nos leva a ir viver para a rua, pergunto-me. Diz me uma na roda que acha fantástico que tenha encontrado um homem inteligente entre eles. Honestamente, acho que de fantástico isso não tem nada. Só os iluminados é que desistem de viver com os outros, só pode...
Olho-o nos olhos. Ele olha-me sem rodeios. Encara me cara a cara, com olhos que nem me desafiam, nem me intimidam mas que me estudam. Não se devia cair no erro ou na ideia de que ele sabe que estou ali à tentativa. Não sei nada de fome nem de miséria. O pouco que sei de nada me serve ali, enquanto me fazem rir com piadas obscenas ("sabe o que é que quer dizer obsceno?"). Tem um barrete azul. Notei logo o barrete azul. Tenho fome e tenho frio. Mas enquanto vou ouvindo história da moça do Pingo Doce na Quinta das Conchas, vou pasmando para as pessoas a minha volta (desliga, desliga, desliga, desliga). Pequenos, altos, magros, gordos, feios, bonitos... Misturam-se todos, e vou-me entretendo a criar-lhes histórias. Quais são órfãos, uns pequenos e enfadonhos Olivers? E quais são, sem ninguém saber, prostitutas, ou vendem droga? Claro que o meu panorama enche-se de dramas e de coisas que me interessam. Sentir sempre, de todas as formas, já dizia o outro. Sei que é de brandar aos céus e de me chamar de louca, mas viver na pele dele, do Fernando, por dois dias deve ser interessante. Diz que não toma banho a quatro meses, que quem toma banho são os porcos. Já sem metade dos dentes, os que restam são algo entre o amarelo e o preto, muito coloridos, certamente interessantes e pouco higiénicos. Sem pedir aprovação, lança uma corrente de piadas, revira o olhos, nega e afirma, tudo diz e nada quer, só fala, não come, e entretêm-se com advinhas. Achei-lhe piada.
O que nos leva a ir viver para a rua, pergunto-me. Diz me uma na roda que acha fantástico que tenha encontrado um homem inteligente entre eles. Honestamente, acho que de fantástico isso não tem nada. Só os iluminados é que desistem de viver com os outros, só pode...
Saturday, 6 February 2010
Sem noticias de Deus - ii
Sentiu o estalar dos seus dedos, esperando um segundo antes de voltar a passar a sua ponta pela ranhura da chave. Empurrando levemente a fechadura, sentiu a madeira da porta estalar e o ruído seco da mola trancada a bater contra a madeira. Não percebia muito de fechaduras, realmente não eram um tópico que lhe soasse assim muito interessante, mas desde a algum tempo que investia numa fechadura eficaz. Concentrava-se na fechadura com uma atenção impressionante para quem quer que por lá passasse (ninguém iria lá passar visto que ele vivia no quinto andar de uma casa, numa ponta remota e quieta de Lisboa, sem mais ninguém no largo apartamento que lá passasse) iria achar quase desconcertante a forma como teimava em ignorar o que se passava à sua volta. Estava no lado de fora do quinto andar, a trancar as portas para o seu apartamento. Bem, tudo aquilo era a sua casa, mas o quinto andar era o seu apartamento. Atrás de si havia outra porta que dava directamente para uma ala do apartamento que ele utilizava como a sala de não ter nada, ou seja, não acontecia lá nada, não havia lá nada, nem era necessária para coisa nenhuma, mas existia, e de certa forma, isso era confortável. Só tinha reparado o quanto gostava dela assim quando a mãe haveria insistido em trazer-lhe as ultimas caixas de coisas suas que tinha na sua casa de infância, coisas que ele já não via ás séculos e que não lembrava a ninguém ainda ter, mas lá ela lhas tinha trazido e enfiado no sala de não ter nada. Quanto tinha chegado a casa, e a tinha visto sentada no meio a espaçosa sala, espaçosa pelo menos para cima, sendo que era dos quartos mais pequenos do apartamento, sentiu um calor nas entranhas que o obrigou a esperar aquele dez segundos, enquanto contava de dez a um, numa espécie de hipnose auto-imposta. Claro que uma tentativa calma de explicar o porque de não querer nada lá tinha falhado ("És louco, só podes ser louco! Onde já se viu uma sala de não ter nada, tens é tempo demais para não fazeres nada, é o que é! Se trabalhasses, não eras tão idiota!") e logo tinha passado, no seu jeito amigável, para ignorar a mãe, e arrastar a tralha para o corredor, e prossegui ignorando os protestos da progenitora quando a pós fora de casa, descendo os cinco andares, e lhe retirou a chave das mãos, diplomaticamente dizendo-lhe que estava desconvidada a servir-se da sua casa como sua. Não que a sua mãe alguma vez tenha estado mesmo convidada para tal fazer, mas não interessava, o convite formal havia sido desfeito.
Não o incomodou as três semanas sem uma palavra ou um bip no telemóvel. Alias, foram três óptimas semanas, de descanso. Não queria saber de ninguém. Não era uma pessoa agradável, ainda que continuasse a ser uma pessoa. Mas, enfim. Finalmente, a terceira fez que sentiu o som seco da mola, relaxou e virou-se para as escadas, para as descer. Numa mão uma meia dúzia de sacos de plástico (amigo do ambiente) e na outra, as chaves do apartamento que iam sendo postas no bolso. Desceu ruidosamente, mas não havia mais ninguém para ouvir o seu ruído, por isso era como se não existisse, e passou pelos restantes andares sem notar a diferença. O seu ainda tinha um ar de habitável, a janela estava iluminada pela luz do candeeiro de rua, e tinha uma planta que a mãe insistia em manter viva, mesmo que através de exigencias e chantagens pelo telefone. Os outros andares? Estes estavam fechados, as cortinas puxadas, e a escuridão era imensa, e a luz vinha sabe-se lá de onde. Desceu, desceu, desceu. As escadas em caracol quase, com o som da madeira a guinchar e protestar debaixo do seu peso, não muito considerável, a medida que evitava os sítios partidos com um a vontade de quem muito sobe e desce, mais de memoria do que de pratica. Tinha lá vivido em pequeno, e coisas dessas não se esquecem.
Chegou ao ultimo andar, e sem dar a si próprio a hipóteses de desistir (estava farto de comer sardinha em lata), saiu à rua, e batendo a porta atrás de si, imaginado o eco de silencio que se teria feito dentro da enorme e vazia casa. No cimo das pequenas escadas que davam para o portão, olhou em volta. Do outro lado da rua, uma senhora idosa caminhava com um rapaz muito, mesmo muito mais novo. Considerou se seria o neto, mas parecia que a modernidade das coisas até a ele já o afectavam, e ponderou se não seria um rapaz novo a abusar da bondade e necessidade de uma idosa. Feia como era, de lábios pintados de cor-de-laranja avermelhado (mas que cores de batons fazem, meu Deus...), com o seu cabelo branco amarelado, talvez de falta de água ou excesso dela que o tinha enferrujado como um pedaço de metal usado a demasiado tempo, e apertava a mão do rapaz como que se da sua vida dependesse o quão forte era o aperto. O rapaz, nem lhe via a cara, na escuridão do começo de noite, mas parecia lhe apenas mais um rapaz, igual a tantos outros, alto, de cabelo curto e com um ar moderno e indiferente a tantos outros. O ar estava um pouco frio, daquele frio que ataca o interior dos pulmões. Um ar gélido de noite. Esfregando a barba, desce os degraus e inicia o caminho que já faz sem pensar nisso. Vai todo o caminho sentido o gelo da noite em volta do corpo. Não leva roupa particularmente quente, apenas uma t-shirt e um casaco fino, que mais o arrefece do que aquece, quando lhe toca na pele. Vai com as mãos nos bolsos, sentido a sua pulsação, sem nenhum pensamento em concreto, com a mente lisa, e vazia, cheia de varias coisas e de nada, como muitas vezes nos todos nos encontramos pelo dia fora, naqueles momentos em que se tentamos pensar naquilo que nos ocorria na altura, não nos conseguimos lembrar, porque mesmo que fosse algo de importante, único e perfeito, para nos aquele momento não passou de algo fugaz e pouco importante.
Acordou do transe a tempo de olhar para o lado e ver um carro passar. Registou que já podia atravessar, e assim o fez, entrando no domínio do supermercado. Era um supermercado igual aos outros. Alias, não havia nada naquela vizinhança que fosse particularmente merecedora de atenção, não por fora pelo menos. As pessoas eram iguais as outras de uma freguesia mais ao lado, tinham as mesmas conversas, tinham o mesmo tipo de ideias e de passatempos, e criavam mais uma pequena comunidade com todos os estereótipos que alguém de outro sitio espera encontrar. A senhora da mercearia continua a ser gorda e barulhenta, o marido continua a ser pequeno e franzido, sempre um pouco intimidado com toda gente e em especial com a mulher. O dono da loja de ferragens parecia estar constantemente com medo de água, o dono do café local continuava a ser um idiota com cara de pedófilo, e eram sempre assim, em todo o lado. E não era, portante, de estranhar que o supermercado, uma superfície grande e de metal, fosse igual a tantas outras. Passando pelos tares ou quatro carros sempre presentes no supermercado, e entrando na loja, foi directo retirar um carrinho, que era mais um carrão, mas pronto, e entrou na parte comercial.
Os corredores imediatamente no seu campo de visão estavam vazios. Há algo de bizarro mas interessante em supermercados a noite. O vazio é quase que oco, e estamos sempre a espera que algo aconteça. Era uma terça feira, as pessoas estavam provavelmente em casa a amaldiçoar o começo da semana ainda, e como era um daqueles dias que não é meio, nem fim, nem principio do mês, não haveria lá ninguém que pudesse observar com um ar de desprezo ou curiosidade o pintor, que estava coberto de tinta e tinha aquele ar de quem não via um bom dia de sol a longos, longos tempos. Passou devagar no corredor dos congelados, abrindo e fechando, observando e ponderando. Tinha de comer. Não queria, mas tinha. Não lhe apetecia, era um esforço demasiado inqui9etante para o satisfazer, a não ser nos momentos em que só conseguia pensar em comida. Retirou algumas caixas de gelado, das marcos finas, e algumas caixas de pizza, de comida estrangeira. Lentamente empurrou o carrinho para a zona da fruta. Não muito longe de si, estava a senhora com o rapaz. O brilho das luzes falsas do corredor da fruta contratavam desagradavelmente contra a pele branca e leitosa da velha, o seu batom cor-de-laranja avermelhando tornando-se ainda menos atraente. O rapaz, afinal, era mais novo do que parecia por trás, com a cara com aquele ar de inocência idiota e pouco atraente, um bigode de virgem e com uma postura desajeitada, própria de um corpo ainda em desenvolvimento e com pouca graciosidade. A mão enrugada e pálida, com tonas de castanho e cinzento as manchas, estavam a centímetros das laranjas, enquanto inquiria com a cara a aproximar-se também, como que se já não as visse bem, o que provavelmente seria o caso. Observando-os por um segundo, não sentia nada, apenas erigia as sobrancelhas ligeiramente em curiosidade mas não da simpática, antes de virar a cara de começar a recolher as mangas sintéticas, e os morangos de estufa, e os frutos vermelhos que lhe apreciam a frente. Era o que gostava. Isso e kiwis, só queria isso. Sumarentos, verdes, com um toque acido e amargo, a sensação do interior mais denso. Eram bons.
Não queria mais fruta, mas parou a observar os seus pes no espelho. Mexeu os para direita, e depois para a esquerda. E depois ao mesmo tempo. E depois, durante uns minutos, divertiu-se a coreografar os seus movimentos, qual uma criança que vê algo novo como que se divertir. Talvez o silencio ou um sinal imperceptível o tenha avisado, então olhou para trás, e viu uma mulher jovem na parte dos congelados a observa-lo. Sabem aquele momento em que estamos não interessados naquilo que estamos a ver, que deixamos de ver que é uma pessoa mas passamos a ver o que seja que esta a acontecer como uma peça de teatro, e ignoramos que não o é? E que demoramos um ou dois segundos a perceber que não é, efectivamente, uma peça de teatro, e que a outra pessoa já nos apanhou a vê-la, e que ao contraria da peça em que no sentamos a observar os outros sem vergonha porque é esse o objectivo (demonstramos uma realidade pouco provável ou se provável, quer seria muito menos interessante na realidade), a outra pessoa poderá pensar e interpretar a nossa observação como mil e uma coisas? Foi o que ela sentiu, e demorou uns segundos a perceber que o homem que estava a dançar a frente da fruta a tinha apanhado. Corou, ela corou e olhou para baixo, sentindo as suas faces a ficarem frias, e o corpo tonto, um sentimento parvo. O seu cabelo caiu-lhe em frente da cara, graças a Deus. Passando as mãos nervosamente pela cara, fechou a tampa e nem tirou os camarões que queria, agarrando o seu cesto, tentando não olhar para a figura que tinha visto. O seu cabelo escuro e liso tapavam a sua cara, pequena e com um leve arzinho de rato(para os que gostam de eufemismos).
Não tirando os olhos de cima dela, fixou o seu nervosismo com pouco interesse. Viu-a caminha devagar, entretendo-se a olhar sabe se para lá. Desviou o olhar, enquanto a figura feminina, vestida com um comprido vestido fora-de-moda azul as riscas, e empurrou o seu próprio carrinho para longe dos espelhos da fruta. Entrou nos corredores e saiu, e dali a meia hora tinha o que queria. Mais minguem viu e também não procurou. Aceitava quem vinha com pouco interesse. Chegou a única caixa aberta e descarregou tudo. Fruta, comida, tinha carne, carne de porco, carne de vaca, carne de galinha ou galo, tinha queijo, amanteigado, francês, do velho, do novo, fresco, antigo, curado, de cabra, tinha enchidos, presuntos, muito presunto, tinha vinho, vinho daqui e da li, do tinto, do verde, do rosé para a mãe enfrascar quando lá ia, tinha whisky, muito whisky, tinha vodka e tinha tiquila para as noites interessantes de filmes e de pintura, tinha panos novos que usava sempre ao pintar, tinha laminas, champô, tinha pastilhas, tinha alguma revistas, alguns livro idiotas que vinham ao lado das revistas, tinha cadernos e canetas que estava sempre a perder, tinha produtos de limpeza, tinha produtos para cozinhar, tinha de tudo um pouco, típico de quem evitava sair de casa para compras. Pagou, e parou a frente da caixa, já do outro lado, pasmando. Tinha uns trinta sacos, como os ia levar para casa?
Não o incomodou as três semanas sem uma palavra ou um bip no telemóvel. Alias, foram três óptimas semanas, de descanso. Não queria saber de ninguém. Não era uma pessoa agradável, ainda que continuasse a ser uma pessoa. Mas, enfim. Finalmente, a terceira fez que sentiu o som seco da mola, relaxou e virou-se para as escadas, para as descer. Numa mão uma meia dúzia de sacos de plástico (amigo do ambiente) e na outra, as chaves do apartamento que iam sendo postas no bolso. Desceu ruidosamente, mas não havia mais ninguém para ouvir o seu ruído, por isso era como se não existisse, e passou pelos restantes andares sem notar a diferença. O seu ainda tinha um ar de habitável, a janela estava iluminada pela luz do candeeiro de rua, e tinha uma planta que a mãe insistia em manter viva, mesmo que através de exigencias e chantagens pelo telefone. Os outros andares? Estes estavam fechados, as cortinas puxadas, e a escuridão era imensa, e a luz vinha sabe-se lá de onde. Desceu, desceu, desceu. As escadas em caracol quase, com o som da madeira a guinchar e protestar debaixo do seu peso, não muito considerável, a medida que evitava os sítios partidos com um a vontade de quem muito sobe e desce, mais de memoria do que de pratica. Tinha lá vivido em pequeno, e coisas dessas não se esquecem.
Chegou ao ultimo andar, e sem dar a si próprio a hipóteses de desistir (estava farto de comer sardinha em lata), saiu à rua, e batendo a porta atrás de si, imaginado o eco de silencio que se teria feito dentro da enorme e vazia casa. No cimo das pequenas escadas que davam para o portão, olhou em volta. Do outro lado da rua, uma senhora idosa caminhava com um rapaz muito, mesmo muito mais novo. Considerou se seria o neto, mas parecia que a modernidade das coisas até a ele já o afectavam, e ponderou se não seria um rapaz novo a abusar da bondade e necessidade de uma idosa. Feia como era, de lábios pintados de cor-de-laranja avermelhado (mas que cores de batons fazem, meu Deus...), com o seu cabelo branco amarelado, talvez de falta de água ou excesso dela que o tinha enferrujado como um pedaço de metal usado a demasiado tempo, e apertava a mão do rapaz como que se da sua vida dependesse o quão forte era o aperto. O rapaz, nem lhe via a cara, na escuridão do começo de noite, mas parecia lhe apenas mais um rapaz, igual a tantos outros, alto, de cabelo curto e com um ar moderno e indiferente a tantos outros. O ar estava um pouco frio, daquele frio que ataca o interior dos pulmões. Um ar gélido de noite. Esfregando a barba, desce os degraus e inicia o caminho que já faz sem pensar nisso. Vai todo o caminho sentido o gelo da noite em volta do corpo. Não leva roupa particularmente quente, apenas uma t-shirt e um casaco fino, que mais o arrefece do que aquece, quando lhe toca na pele. Vai com as mãos nos bolsos, sentido a sua pulsação, sem nenhum pensamento em concreto, com a mente lisa, e vazia, cheia de varias coisas e de nada, como muitas vezes nos todos nos encontramos pelo dia fora, naqueles momentos em que se tentamos pensar naquilo que nos ocorria na altura, não nos conseguimos lembrar, porque mesmo que fosse algo de importante, único e perfeito, para nos aquele momento não passou de algo fugaz e pouco importante.
Acordou do transe a tempo de olhar para o lado e ver um carro passar. Registou que já podia atravessar, e assim o fez, entrando no domínio do supermercado. Era um supermercado igual aos outros. Alias, não havia nada naquela vizinhança que fosse particularmente merecedora de atenção, não por fora pelo menos. As pessoas eram iguais as outras de uma freguesia mais ao lado, tinham as mesmas conversas, tinham o mesmo tipo de ideias e de passatempos, e criavam mais uma pequena comunidade com todos os estereótipos que alguém de outro sitio espera encontrar. A senhora da mercearia continua a ser gorda e barulhenta, o marido continua a ser pequeno e franzido, sempre um pouco intimidado com toda gente e em especial com a mulher. O dono da loja de ferragens parecia estar constantemente com medo de água, o dono do café local continuava a ser um idiota com cara de pedófilo, e eram sempre assim, em todo o lado. E não era, portante, de estranhar que o supermercado, uma superfície grande e de metal, fosse igual a tantas outras. Passando pelos tares ou quatro carros sempre presentes no supermercado, e entrando na loja, foi directo retirar um carrinho, que era mais um carrão, mas pronto, e entrou na parte comercial.
Os corredores imediatamente no seu campo de visão estavam vazios. Há algo de bizarro mas interessante em supermercados a noite. O vazio é quase que oco, e estamos sempre a espera que algo aconteça. Era uma terça feira, as pessoas estavam provavelmente em casa a amaldiçoar o começo da semana ainda, e como era um daqueles dias que não é meio, nem fim, nem principio do mês, não haveria lá ninguém que pudesse observar com um ar de desprezo ou curiosidade o pintor, que estava coberto de tinta e tinha aquele ar de quem não via um bom dia de sol a longos, longos tempos. Passou devagar no corredor dos congelados, abrindo e fechando, observando e ponderando. Tinha de comer. Não queria, mas tinha. Não lhe apetecia, era um esforço demasiado inqui9etante para o satisfazer, a não ser nos momentos em que só conseguia pensar em comida. Retirou algumas caixas de gelado, das marcos finas, e algumas caixas de pizza, de comida estrangeira. Lentamente empurrou o carrinho para a zona da fruta. Não muito longe de si, estava a senhora com o rapaz. O brilho das luzes falsas do corredor da fruta contratavam desagradavelmente contra a pele branca e leitosa da velha, o seu batom cor-de-laranja avermelhando tornando-se ainda menos atraente. O rapaz, afinal, era mais novo do que parecia por trás, com a cara com aquele ar de inocência idiota e pouco atraente, um bigode de virgem e com uma postura desajeitada, própria de um corpo ainda em desenvolvimento e com pouca graciosidade. A mão enrugada e pálida, com tonas de castanho e cinzento as manchas, estavam a centímetros das laranjas, enquanto inquiria com a cara a aproximar-se também, como que se já não as visse bem, o que provavelmente seria o caso. Observando-os por um segundo, não sentia nada, apenas erigia as sobrancelhas ligeiramente em curiosidade mas não da simpática, antes de virar a cara de começar a recolher as mangas sintéticas, e os morangos de estufa, e os frutos vermelhos que lhe apreciam a frente. Era o que gostava. Isso e kiwis, só queria isso. Sumarentos, verdes, com um toque acido e amargo, a sensação do interior mais denso. Eram bons.
Não queria mais fruta, mas parou a observar os seus pes no espelho. Mexeu os para direita, e depois para a esquerda. E depois ao mesmo tempo. E depois, durante uns minutos, divertiu-se a coreografar os seus movimentos, qual uma criança que vê algo novo como que se divertir. Talvez o silencio ou um sinal imperceptível o tenha avisado, então olhou para trás, e viu uma mulher jovem na parte dos congelados a observa-lo. Sabem aquele momento em que estamos não interessados naquilo que estamos a ver, que deixamos de ver que é uma pessoa mas passamos a ver o que seja que esta a acontecer como uma peça de teatro, e ignoramos que não o é? E que demoramos um ou dois segundos a perceber que não é, efectivamente, uma peça de teatro, e que a outra pessoa já nos apanhou a vê-la, e que ao contraria da peça em que no sentamos a observar os outros sem vergonha porque é esse o objectivo (demonstramos uma realidade pouco provável ou se provável, quer seria muito menos interessante na realidade), a outra pessoa poderá pensar e interpretar a nossa observação como mil e uma coisas? Foi o que ela sentiu, e demorou uns segundos a perceber que o homem que estava a dançar a frente da fruta a tinha apanhado. Corou, ela corou e olhou para baixo, sentindo as suas faces a ficarem frias, e o corpo tonto, um sentimento parvo. O seu cabelo caiu-lhe em frente da cara, graças a Deus. Passando as mãos nervosamente pela cara, fechou a tampa e nem tirou os camarões que queria, agarrando o seu cesto, tentando não olhar para a figura que tinha visto. O seu cabelo escuro e liso tapavam a sua cara, pequena e com um leve arzinho de rato(para os que gostam de eufemismos).
Não tirando os olhos de cima dela, fixou o seu nervosismo com pouco interesse. Viu-a caminha devagar, entretendo-se a olhar sabe se para lá. Desviou o olhar, enquanto a figura feminina, vestida com um comprido vestido fora-de-moda azul as riscas, e empurrou o seu próprio carrinho para longe dos espelhos da fruta. Entrou nos corredores e saiu, e dali a meia hora tinha o que queria. Mais minguem viu e também não procurou. Aceitava quem vinha com pouco interesse. Chegou a única caixa aberta e descarregou tudo. Fruta, comida, tinha carne, carne de porco, carne de vaca, carne de galinha ou galo, tinha queijo, amanteigado, francês, do velho, do novo, fresco, antigo, curado, de cabra, tinha enchidos, presuntos, muito presunto, tinha vinho, vinho daqui e da li, do tinto, do verde, do rosé para a mãe enfrascar quando lá ia, tinha whisky, muito whisky, tinha vodka e tinha tiquila para as noites interessantes de filmes e de pintura, tinha panos novos que usava sempre ao pintar, tinha laminas, champô, tinha pastilhas, tinha alguma revistas, alguns livro idiotas que vinham ao lado das revistas, tinha cadernos e canetas que estava sempre a perder, tinha produtos de limpeza, tinha produtos para cozinhar, tinha de tudo um pouco, típico de quem evitava sair de casa para compras. Pagou, e parou a frente da caixa, já do outro lado, pasmando. Tinha uns trinta sacos, como os ia levar para casa?
Na verdade, a grande parte das vezes nos não fazemos o que queremos. Alias, nunca ninguém faz o que quer. No fim do dia, nos apenas fazemos aquilo que nos dizem. Mesmo que por um segundo pensemos em qualquer coisa diferente, o nosso sistema em si entra em desespero e mata a tiro pensamentos independentes. Ninguém escapa. mesmo os que escapam desta esfera, entram noutra, em que são convencidos que aquilo em que pensam é original, e que são diferentes. Vamos chamar-lhes de esfera quadrada, porque toda gente sabe que quadrados são aqueles que só pensam dentro da caixa. E a outra esfera? Bem, que nome lhes damos? Podemos dar-lhe o nome de alguém que tenha ido contra a caixa (a caixa não!) mas isso seria parvo. Parvo? Parvo porque? Porque ao fim ao cabo, já ninguém vai contra a caixa, já está tão entranhada nos nossos corpos, no nossos sangue que nem quem tenta, consegue. Porque é quase como se estivéssemos a ir contra nos próprios. E assim não dá. Então chamemos a outra esfera de esfera gaiola. Gaiola porque? Porque que tortura ultrapassa sermos presos com vista para a liberdade?
Estamos presos, já fora da gaiola, e vislumbramos um mundo onde não somos controlados, amarrados, mas ao mesmo tempo não o deixamos de ser. Passam por nos momentos em que quase que chegamos lá, quase que os vê-mos e quase que os apanhamos, mas eles escapam por entre as nossas mãos, e lá vão eles, fugindo e deixando para atrás apenas uma vaga memoria de um momento, um segundo na linha do tempo em que não nos sentimos tão completamente deslocados e sem sentido. Inúteis. Mas depois podemos dizer que se fizermos alguma coisa, que ai sim, deixamos de ser inúteis, e mesmo que ninguém saiba que o fizemos, nós sabemos. Está bem. Espero que estares sentado dentro de ti próprio, a remoer na memoria de que um dia fizeste algo que te libertou mas que ninguém sabe, que não sabes como o partilhar porque ninguém vai entender. Que um dia a luz do sol ou da lâmpada não brilhava de forma igual, que parecia que o próprio tecido da realidade se havia mudado, que tudo tinha outro sentido. Havias entrado num estado de espírito, estado de ser, num mundo a parte mas ao pé daquele onde vives a grande parte do tempo. Era como se, acordado, tivesses entrado num mundo onde só chegas nos sonhos. E que é por isso que tantas vezes acordas, a meio da noite, no silencio de um mundo a dormir, com uma saudade penosa, um nostalgia que tem tanto de amarga como de reconfortante, de algo que te reconfortou. E depois, deitas-te outra vez, e adormeces. Com sorte, esqueces-te disso quando acordas, algumas horas mais tarde. Com sorte, esqueces-te. Porque se te lembras, acordas e passas o dia todo, a semana, talvez o mês todo a pensar naquele momento. Naquele momento em que sentiste com toda a certeza que há dentro desse teu corpo inútil e efémero que há algo mais. Que não estavas sozinho ali, e que se o estavas, isso era suficiente por uma vez na tua vida. Se não te consegues esquecer, pelo menos ignorar, que há qualquer coisa em ti que é divino, e começas a duvidar de tudo e de todas, e tudo aquilo que conheces começa a ser avalizado, reavaliado e inevitavelmente mal-interpretado. Entras numa realidade, e não sabes sair dela. Mas se sais, seja como for, queres voltar.
E depois?
Depois ficas preso nesse constante impasse, do entrar e sair. Quando não estás lá duvidas que exista, questionas a tua cabeça, lês toda a psicologia banal que consegues a procura de explicações onde elas não existem, e, se existem, não te satisfazem porque não és capaz de diminuir a felicidade que sentiste a um mero devaneio de louco, e quando lá estas, nem a felicidade que te cobre é suficiente para te fazer não lembrar que é de curta duração, e de que mesmo dentro dela há a constante lembrança de quem nem sempre te sentes assim. Então, não te esqueces mas tentas não pensar nem relembrar. A tua cabeça remete para esse pensamento, tentas explicar umas vinte vezes as pessoas, ou a mesma pessoa, ou a três ou quatro pessoas que achas que vão entender, mas elas não entendem. Se calhar também elas o querem esquecer, mas ficas com aquele gosto amargo na boca de uma pessoa que já não aguenta uma sociedade infestada de idiotas, de parvos, de inteligências vazias, de memorias e de pensamentos estereotipados. Tentas encontrar uma solução, mas deixou de funcionar aqueles mecanismos de conforto que nem conforto alguma vez te deram, apenas uma vaga sombra de simpatia pela tua causa, que nunca foi causa, porque nunca ninguém lutou por ela, nem mesmo tu. Cada vez que lês sobre formas "alternativas" de viver, sentes ou nojo ou algum desejo, mas nem tentas. Para que? O teu corpo desistiu de pensar em outras formas de ver o mundo, porque só queres a tua própria visão, mas essa é esmagada todos os dias pela visão da televisão, das séries ou dos outros. Não as entendes, finges que sim, e passas a frente, já não há maneira. E mesmo quando pensas que viste qualquer coisa que te agrade, a preguiça logo afasta essa forma de viver. Que interessa, que interessa, grita a tua cabeça, quem sabe o teu coração, mas toda gente sabe que o coração não grita, porque o coração não tem sentimentos.
(e no fim, palavras que querias, esperam em fila, enquanto vagueias no mundo a espera de descanso ou de mais uma vaga de luz sobre a tua mente. e aqueles que tentam sair de caixa, entram na gaiola. e convencem-se que pensam sozinhos, mas não. apenas tem outras fontes de informação, tão controladas como as outras. quem as controla? não sabes. se calhar ninguém mas toda gente ao mesmo tempo. um contrato silencioso de que para continuarmos minimamente vivos, nem que seja biologicamente, temos que continuar assim. a ignorar o primitivo, a fuga, o escape, e de anular-mos os nossos sonhos, porque esses são egoístas. a felicidade não é para os humanos.)
Estamos presos, já fora da gaiola, e vislumbramos um mundo onde não somos controlados, amarrados, mas ao mesmo tempo não o deixamos de ser. Passam por nos momentos em que quase que chegamos lá, quase que os vê-mos e quase que os apanhamos, mas eles escapam por entre as nossas mãos, e lá vão eles, fugindo e deixando para atrás apenas uma vaga memoria de um momento, um segundo na linha do tempo em que não nos sentimos tão completamente deslocados e sem sentido. Inúteis. Mas depois podemos dizer que se fizermos alguma coisa, que ai sim, deixamos de ser inúteis, e mesmo que ninguém saiba que o fizemos, nós sabemos. Está bem. Espero que estares sentado dentro de ti próprio, a remoer na memoria de que um dia fizeste algo que te libertou mas que ninguém sabe, que não sabes como o partilhar porque ninguém vai entender. Que um dia a luz do sol ou da lâmpada não brilhava de forma igual, que parecia que o próprio tecido da realidade se havia mudado, que tudo tinha outro sentido. Havias entrado num estado de espírito, estado de ser, num mundo a parte mas ao pé daquele onde vives a grande parte do tempo. Era como se, acordado, tivesses entrado num mundo onde só chegas nos sonhos. E que é por isso que tantas vezes acordas, a meio da noite, no silencio de um mundo a dormir, com uma saudade penosa, um nostalgia que tem tanto de amarga como de reconfortante, de algo que te reconfortou. E depois, deitas-te outra vez, e adormeces. Com sorte, esqueces-te disso quando acordas, algumas horas mais tarde. Com sorte, esqueces-te. Porque se te lembras, acordas e passas o dia todo, a semana, talvez o mês todo a pensar naquele momento. Naquele momento em que sentiste com toda a certeza que há dentro desse teu corpo inútil e efémero que há algo mais. Que não estavas sozinho ali, e que se o estavas, isso era suficiente por uma vez na tua vida. Se não te consegues esquecer, pelo menos ignorar, que há qualquer coisa em ti que é divino, e começas a duvidar de tudo e de todas, e tudo aquilo que conheces começa a ser avalizado, reavaliado e inevitavelmente mal-interpretado. Entras numa realidade, e não sabes sair dela. Mas se sais, seja como for, queres voltar.
E depois?
Depois ficas preso nesse constante impasse, do entrar e sair. Quando não estás lá duvidas que exista, questionas a tua cabeça, lês toda a psicologia banal que consegues a procura de explicações onde elas não existem, e, se existem, não te satisfazem porque não és capaz de diminuir a felicidade que sentiste a um mero devaneio de louco, e quando lá estas, nem a felicidade que te cobre é suficiente para te fazer não lembrar que é de curta duração, e de que mesmo dentro dela há a constante lembrança de quem nem sempre te sentes assim. Então, não te esqueces mas tentas não pensar nem relembrar. A tua cabeça remete para esse pensamento, tentas explicar umas vinte vezes as pessoas, ou a mesma pessoa, ou a três ou quatro pessoas que achas que vão entender, mas elas não entendem. Se calhar também elas o querem esquecer, mas ficas com aquele gosto amargo na boca de uma pessoa que já não aguenta uma sociedade infestada de idiotas, de parvos, de inteligências vazias, de memorias e de pensamentos estereotipados. Tentas encontrar uma solução, mas deixou de funcionar aqueles mecanismos de conforto que nem conforto alguma vez te deram, apenas uma vaga sombra de simpatia pela tua causa, que nunca foi causa, porque nunca ninguém lutou por ela, nem mesmo tu. Cada vez que lês sobre formas "alternativas" de viver, sentes ou nojo ou algum desejo, mas nem tentas. Para que? O teu corpo desistiu de pensar em outras formas de ver o mundo, porque só queres a tua própria visão, mas essa é esmagada todos os dias pela visão da televisão, das séries ou dos outros. Não as entendes, finges que sim, e passas a frente, já não há maneira. E mesmo quando pensas que viste qualquer coisa que te agrade, a preguiça logo afasta essa forma de viver. Que interessa, que interessa, grita a tua cabeça, quem sabe o teu coração, mas toda gente sabe que o coração não grita, porque o coração não tem sentimentos.
(e no fim, palavras que querias, esperam em fila, enquanto vagueias no mundo a espera de descanso ou de mais uma vaga de luz sobre a tua mente. e aqueles que tentam sair de caixa, entram na gaiola. e convencem-se que pensam sozinhos, mas não. apenas tem outras fontes de informação, tão controladas como as outras. quem as controla? não sabes. se calhar ninguém mas toda gente ao mesmo tempo. um contrato silencioso de que para continuarmos minimamente vivos, nem que seja biologicamente, temos que continuar assim. a ignorar o primitivo, a fuga, o escape, e de anular-mos os nossos sonhos, porque esses são egoístas. a felicidade não é para os humanos.)
Tuesday, 12 January 2010
"Morreu a minha netinha, de dez anos, sem ar."
Sem ar, dizes tu? Morreu como? Asfixiada nesta pobreza de espírito, sem eira nem beira, sem suporte nem... nada? Sento-me, cansada, os olhos a pesarem-me na cara, enquanto sinto o leve balanço da carruagem, que me leva a um estado de não sono, mas de profundo cansaço. Seria mais fácil morrer, deixar me ir, sem preocupações nem nervosismos. Simplesmente... dormir. Mas depois acordo, e olho para a senhora ao meu lado. Sorri-me, deseja me saúde. Como é que se perde alguém assim e se deseja saúde a desconhecidos no metro? Não sei, as vezes pondero se alguém lá em cima não me manda estas piadas de mau gosto, só para me testar a paciência.
Mas isso seria presunção e arrogância que alguém lá em cima quer saber de mim.
Então, acompanho o seu passo parado, enquanto ela me fala. Sorrio-lhe, mal ouço o que diz, fala baixo e para dentro, mas que mal tem sorrir-lhe? Olha-me, toca-me no ombro. O gesto não me assusta nem intimida, mas faz me sorrir ainda mais. As vezes, são raras, engraço com estes toques. Não são românticos ou sexuais, são humanos. Toques humanos. Da nossa, da minha pelo menos e da de alguns, de tocar noutra pessoa. Um choque. Uma colisão. Para nos relembrarmos que não morremos. Que ainda estamos aqui, presos na terra que o patrão lá em cima criou. Um espécie de post-it, para nos lembrar-mos que não, as pessoas a tua volta não são apenas nuvens, etereas e passageiras, como tantas vezes parecem. Entram e sai-em das carruagens, nunca mais as vejo. Não sei se os meus vizinhos são os mesmos todos os dias, vejo sempre mil e uma pessoas que nunca vi antes. Nunca as mesmas. Ou sou eu que vejo mal?
"Morreu a minha netinha, de dez anos, sem ar." diz me a senhora.
Fixo-a, e o mundo para. Que lhe vou dizer? Acabei de comentar que não foi ela que engordou, mas que foi o casaco que diminuiu. E agora digo-lhe o que? Uma frase bonita, tirada de uma cartão de papel das tabacarias, como "pelo menos está num sitio melhor"? Que raio de frase é essa?
A mim e a senhora que interessa que estejam num sitio melhor? Antes estarem cá, neste ninho nefasto e putrefacto, onde pudemos chorar ao seu ombro do que num sitio qualquer, a chorar pelas cinzas e carne podre e pelo seu ombro agora uma ideia abstracta e não uma realidade? Sou feita de carne! De vermelho, de tecido. Que me interessam os confortos escassos da alma, se é o corpo que me doí? Que me interessa?! De nada me servem ideias ocas, e de nada servem palavras vazias à senhora. Que lhe digo?
O momento passa, e sorri-me. Deseja me novamente saúde, e despacha a minha presença. Como quem diz que sabe que tenho outras coisas a fazer. Subo as escadas, um pouco atordoada, um pouco anestesiada pelo sono de estar acordada desde as quatro da manha. Não sei se pouco dormir é melhor que não dormir (sabes o que perdes). Mas olho para trás, e vejo-a, desajeitadamente subindo as escadas, com os seus óculos de avo de filme, redondos e com reflexos, o seu cabelo grisalho e fino, prateado e branco, encaracolado cuidadosamente em volta da sua cara, o seu casaco, demasiado pequeno, de cabedal preto, e sinto-me desfalecer. Vai para casa, para quem? Que casa? Pergunto-me se vive sozinha, se vive numa casa fria. Se mesmo que não viva sozinha, se se sente sozinha. O vómito enche-me a traqueia, e desvio os olhos no momento em que ela retorna a olhar para mim, com um sorriso curto de despedida e continuo a andar. Subo as escadas a correr, a fugir. A fugir daquela ideia, daquela mulher, velha, a morrer por dentro e por fora. Fujo do medo, do terror, do horrível da sua realidade. Mas eu posso fugir, ela não.
Será que se sente sozinha? Tremo. Chego a casa, deito-me mas não consigo dormir. Olhando o céu, penso. Que ideia de testes tens tu, ó Deus? Tiras e dás. Como viver sem aceitar que o que tu tiras assim tem que ser, ou seria louca. Louca por viver num mundo sem nexo, de for ao acaso, de ocorrências rotativas, como um totoloto da desgraça. Vai e vem, e em quem calha? O meu estomogo não assenta, mexe-se com vómito, sinto a cabeça pesada, dormente e cansada mas não consigo dormir. Porque? Porque viver?
Sem ar, dizes tu? Morreu como? Asfixiada nesta pobreza de espírito, sem eira nem beira, sem suporte nem... nada? Sento-me, cansada, os olhos a pesarem-me na cara, enquanto sinto o leve balanço da carruagem, que me leva a um estado de não sono, mas de profundo cansaço. Seria mais fácil morrer, deixar me ir, sem preocupações nem nervosismos. Simplesmente... dormir. Mas depois acordo, e olho para a senhora ao meu lado. Sorri-me, deseja me saúde. Como é que se perde alguém assim e se deseja saúde a desconhecidos no metro? Não sei, as vezes pondero se alguém lá em cima não me manda estas piadas de mau gosto, só para me testar a paciência.
Mas isso seria presunção e arrogância que alguém lá em cima quer saber de mim.
Então, acompanho o seu passo parado, enquanto ela me fala. Sorrio-lhe, mal ouço o que diz, fala baixo e para dentro, mas que mal tem sorrir-lhe? Olha-me, toca-me no ombro. O gesto não me assusta nem intimida, mas faz me sorrir ainda mais. As vezes, são raras, engraço com estes toques. Não são românticos ou sexuais, são humanos. Toques humanos. Da nossa, da minha pelo menos e da de alguns, de tocar noutra pessoa. Um choque. Uma colisão. Para nos relembrarmos que não morremos. Que ainda estamos aqui, presos na terra que o patrão lá em cima criou. Um espécie de post-it, para nos lembrar-mos que não, as pessoas a tua volta não são apenas nuvens, etereas e passageiras, como tantas vezes parecem. Entram e sai-em das carruagens, nunca mais as vejo. Não sei se os meus vizinhos são os mesmos todos os dias, vejo sempre mil e uma pessoas que nunca vi antes. Nunca as mesmas. Ou sou eu que vejo mal?
"Morreu a minha netinha, de dez anos, sem ar." diz me a senhora.
Fixo-a, e o mundo para. Que lhe vou dizer? Acabei de comentar que não foi ela que engordou, mas que foi o casaco que diminuiu. E agora digo-lhe o que? Uma frase bonita, tirada de uma cartão de papel das tabacarias, como "pelo menos está num sitio melhor"? Que raio de frase é essa?
A mim e a senhora que interessa que estejam num sitio melhor? Antes estarem cá, neste ninho nefasto e putrefacto, onde pudemos chorar ao seu ombro do que num sitio qualquer, a chorar pelas cinzas e carne podre e pelo seu ombro agora uma ideia abstracta e não uma realidade? Sou feita de carne! De vermelho, de tecido. Que me interessam os confortos escassos da alma, se é o corpo que me doí? Que me interessa?! De nada me servem ideias ocas, e de nada servem palavras vazias à senhora. Que lhe digo?
O momento passa, e sorri-me. Deseja me novamente saúde, e despacha a minha presença. Como quem diz que sabe que tenho outras coisas a fazer. Subo as escadas, um pouco atordoada, um pouco anestesiada pelo sono de estar acordada desde as quatro da manha. Não sei se pouco dormir é melhor que não dormir (sabes o que perdes). Mas olho para trás, e vejo-a, desajeitadamente subindo as escadas, com os seus óculos de avo de filme, redondos e com reflexos, o seu cabelo grisalho e fino, prateado e branco, encaracolado cuidadosamente em volta da sua cara, o seu casaco, demasiado pequeno, de cabedal preto, e sinto-me desfalecer. Vai para casa, para quem? Que casa? Pergunto-me se vive sozinha, se vive numa casa fria. Se mesmo que não viva sozinha, se se sente sozinha. O vómito enche-me a traqueia, e desvio os olhos no momento em que ela retorna a olhar para mim, com um sorriso curto de despedida e continuo a andar. Subo as escadas a correr, a fugir. A fugir daquela ideia, daquela mulher, velha, a morrer por dentro e por fora. Fujo do medo, do terror, do horrível da sua realidade. Mas eu posso fugir, ela não.
Será que se sente sozinha? Tremo. Chego a casa, deito-me mas não consigo dormir. Olhando o céu, penso. Que ideia de testes tens tu, ó Deus? Tiras e dás. Como viver sem aceitar que o que tu tiras assim tem que ser, ou seria louca. Louca por viver num mundo sem nexo, de for ao acaso, de ocorrências rotativas, como um totoloto da desgraça. Vai e vem, e em quem calha? O meu estomogo não assenta, mexe-se com vómito, sinto a cabeça pesada, dormente e cansada mas não consigo dormir. Porque? Porque viver?
Saturday, 9 January 2010
Sem noticias de Deus - i
Sentaram-se, pacientemente. Não lhes interessava o que estava a sua volta, nem a casa, nem os sofás, nem as paredes, nem a cor da tinta, nem o cheiro do ambientador que pouco ou nada disfarçava o pesado e ligeiramente nauseabundo cheiro a tinta velha e não usada, vinda do canto da casa, da suposta sala criativa. Não era bem uma sala criativa, porque a sala em si de criativa não tinha nada (que mania de atribuir qualidade a coisas inanimadas, sinceramente) mas era lá que ele se sentava e gastava horas, pacientemente atirando para o infinito nada as suas preciosas horas do dia. Podia dizer-se que ele não tinha problemas quando pensava que hora a hora, minuto a minuto, ele gastava os seus anos de vida, já a começarem a ser uns quantos (mais do que uma mão cheia, se quiserem uma forma de expressão, e neste caso seria mais do que todos os dedos que ele têm no corpo e não, ele não é disforme) e que quando pensa que os melhores anos da sua vida, pelo menos da vida de adulto, estão a ser passados quase barricado dentro de um apartamento esquecido no canto da cidade, ele não sente nada, apenas alivio de que se pode esconder do mundo, e de tudo, apenas saindo para fazer compras. Ainda nem computador tinha, o telefone começou a tocar demasiadas vezes, e pouco lhe interessava o método de mandar vir a comida a casa. Gostava de sair, ir ao supermercado no fundo da rua. Era um dos grandes, dos cheios. Ele aprendera a saber instintivamente a que horas estaria mais vazio, e a visita-lo. Ia de noite, quando apenas os estranhos saiam de casa.
Por volta da meia-noite, parecia que era a hora em que todas as pessoas que não queriam ser vistas iam as compras, porque por muito estranho que pareça que certas pessoas tenham comida em casa visto que nunca saem e nunca ninguém as vai levar a casa, esta não lá aparece por obra e graça do Espírito Santo, visto que este não existe. E se existisse, não lhe parece que estivesse muito preocupado com os seus hábitos alimentares. Lançando um olhar rápido ao casal, mas não casal romântico, na sala, deixou escapar um suspiro enquanto preparada os cafés. Tinha daquelas máquinas novas, bonitas e práticas. Excessivamente caras para um porcaria que expelia café, mas enfim, quem muito pode e pouco quer têm direito a certos luxos. Olhando em volta, o que restava da sua moralidade social sentiu um aperto, deixando-o indisposto. Não recebia visitas a algum tempo, e as que recebia eram amigos, ou pessoas, que conhecia a muito tempo. Por qualquer razão o facto de as conhecer de tal forma libertava-o das convenções sociais de arrumação e limpeza. Mas com os desconhecidos na sua sala, nojenta e que não via um aspirador desde que tinha sido comprada por ele, sentiu-se algo inútil. Desajeitadamente, levou os três cafés para a sala, sentando-se na sua poltrona. Observou as pessoas a sua frente.
A mulher não era bonita nem feia, nem atraente nem desinteressante. Tinha aquele ar de quem nunca nos lembramos do nome, ainda que a ou o vejamos todos os dias, durante anos. Olhos claros, cabelo soltos, uniformes e bem arranjados, sem qualquer traço de estilo ou um interesse afincado. Era arrumação simples e pura, não com o objectivo de se por bonita. Devia estar a sentir-se completamente descolada e enjoada com a sua casa, pensou ele, num misto de divertimento infantil e de culpa, leve mas existente. Tossiu, em jeito de começo. Sabia perfeitamente o que queriam, e eles sabiam perfeitamente que não o iam ter. Não vendia, não dava, nem emprestava nada do que fazia, nem para coisa nenhuma, nem para salvar os meninos de África. Pouco lhe interessava que chorassem, que lhe ameaçassem cortar o futuro, que lhe roubavam os quadros, que lhe tiravam a casa, que lhe matavam o gato, que o raptavam, que lhe envenenavam a água.
- Já lhes disse, umas boas mil vezes, que não vendo, diz ele, de forma agradável. Já está tão habituado a esta conversa que desistiu de ser rude e desagradável. Parecia que quando mais lhes batia, mais eles gostavam dele. Podia ser que se fosse querido e simpático que o rotulassem como bipolar e o deixassem em paz, de uma vez por todas, escapa-me o porque da insistência.
Mas as vezes a vontade de ser ruim escapa por entre as garras da moral.
O homem sem nome ou significado, tossiu por sua vez, e olhou em volta. Era, sem duvida, tudo que lhe tinham dito. Uma casa espaçosa, mas claustrofóbica, devido ao ambiente escuro e pouco iluminação. O por de sol de Lisboa, que tanto iluminava a cidade, no seu lusco-fusco resplandecente, era unicamente representado num dos vários quadros encostados a parede, como lixo velho, mas não entrava pela janela, naquela tarde de terça-feira. Olhando em volta, questionava-se como é que o homem a sua frente não saia de casa, em pânico e a dar em louco (se já não o era) de tanta escuridão. Mas não era calmo nem ingénuo ao ponto de achar que era apenas um reflexo algo romântico do lado negro de artista. Era uma escuridão calculada, talvez sendo que o desejo de manter todos fora e longe fosse um resultado da escuridão do pintor, cujo o nível era desconhecido, talvez até a ele próprio. A sala de entrada e de estar era composta unicamente por um sofá de quatro lugares, largo, podre de velho, de um tecido que em tempos havia sido vermelho e agora era uma mistura peculiar de vermelho escuro, preto, manchas castanhas e tinta. Havia variadas poltronas, sabe-se lá de onde e de que século, todas antigas, e arranjadas ao Deus de ara na sala, enorme e pintada de escuro. De decoração tinha meia dúzia de quadros, seus e de outros, nas paredes, e quadros, uma panóplia de quadros encostados por todo lado, por entre livros, e caixas, um leitor de vinil, uma televisão enorme, e um Xbox. Já nem os ermitas dispensam as novas tecnologias, ao que parecia.
Era uma casa algures em Lisboa, na parte velha e pouco segura. Toda a casa era antiga, a cair de podre, daquelas casas peculiares, agora divididas em apartamentos. Mas toda a casa era sua, herança de família ou sabe-se lá como, ainda que usa-se apenas o ultimo andar. Dos cinco andares, sem elevador, com as escadas em péssima condição, com pouco ou nenhuma luz em certos lugares, com as paredes a ruirem, a tinta a descolar-se e todo o ambiente sinistro de plantas a morrer e de portas trancadas a chave e quartos vazios, parecia que o dono da casa estava a fazer o seu melhor para desencorajar visitantes.
- Entendemos a sua posição, mas digamos que...
A voz do homem era entediante. Que tédio, oh que tédio. Bebendo o seu café, observava a boca, uniforme e fina, do dona da galeria, e sentia-se a deixar escorrer o mau estar e falta de paciência para com o tópico. Sentiu algo dentro do bolso vibrar. Sem pedir licença ou expressar alguma cordialidade formal, tirou o pequeno, gasto e feio telemóvel do bolso, e leu MÃE no ecran. Rangendo os dentes, rejeitou a chamada. Ainda não tinha ido as compras, e não lhe apetecia ter que se explicar aquela mulher e sessenta anos, louca e histérica, mais viva do que ele alguma vez fora.
Por volta da meia-noite, parecia que era a hora em que todas as pessoas que não queriam ser vistas iam as compras, porque por muito estranho que pareça que certas pessoas tenham comida em casa visto que nunca saem e nunca ninguém as vai levar a casa, esta não lá aparece por obra e graça do Espírito Santo, visto que este não existe. E se existisse, não lhe parece que estivesse muito preocupado com os seus hábitos alimentares. Lançando um olhar rápido ao casal, mas não casal romântico, na sala, deixou escapar um suspiro enquanto preparada os cafés. Tinha daquelas máquinas novas, bonitas e práticas. Excessivamente caras para um porcaria que expelia café, mas enfim, quem muito pode e pouco quer têm direito a certos luxos. Olhando em volta, o que restava da sua moralidade social sentiu um aperto, deixando-o indisposto. Não recebia visitas a algum tempo, e as que recebia eram amigos, ou pessoas, que conhecia a muito tempo. Por qualquer razão o facto de as conhecer de tal forma libertava-o das convenções sociais de arrumação e limpeza. Mas com os desconhecidos na sua sala, nojenta e que não via um aspirador desde que tinha sido comprada por ele, sentiu-se algo inútil. Desajeitadamente, levou os três cafés para a sala, sentando-se na sua poltrona. Observou as pessoas a sua frente.
A mulher não era bonita nem feia, nem atraente nem desinteressante. Tinha aquele ar de quem nunca nos lembramos do nome, ainda que a ou o vejamos todos os dias, durante anos. Olhos claros, cabelo soltos, uniformes e bem arranjados, sem qualquer traço de estilo ou um interesse afincado. Era arrumação simples e pura, não com o objectivo de se por bonita. Devia estar a sentir-se completamente descolada e enjoada com a sua casa, pensou ele, num misto de divertimento infantil e de culpa, leve mas existente. Tossiu, em jeito de começo. Sabia perfeitamente o que queriam, e eles sabiam perfeitamente que não o iam ter. Não vendia, não dava, nem emprestava nada do que fazia, nem para coisa nenhuma, nem para salvar os meninos de África. Pouco lhe interessava que chorassem, que lhe ameaçassem cortar o futuro, que lhe roubavam os quadros, que lhe tiravam a casa, que lhe matavam o gato, que o raptavam, que lhe envenenavam a água.
- Já lhes disse, umas boas mil vezes, que não vendo, diz ele, de forma agradável. Já está tão habituado a esta conversa que desistiu de ser rude e desagradável. Parecia que quando mais lhes batia, mais eles gostavam dele. Podia ser que se fosse querido e simpático que o rotulassem como bipolar e o deixassem em paz, de uma vez por todas, escapa-me o porque da insistência.
Mas as vezes a vontade de ser ruim escapa por entre as garras da moral.
O homem sem nome ou significado, tossiu por sua vez, e olhou em volta. Era, sem duvida, tudo que lhe tinham dito. Uma casa espaçosa, mas claustrofóbica, devido ao ambiente escuro e pouco iluminação. O por de sol de Lisboa, que tanto iluminava a cidade, no seu lusco-fusco resplandecente, era unicamente representado num dos vários quadros encostados a parede, como lixo velho, mas não entrava pela janela, naquela tarde de terça-feira. Olhando em volta, questionava-se como é que o homem a sua frente não saia de casa, em pânico e a dar em louco (se já não o era) de tanta escuridão. Mas não era calmo nem ingénuo ao ponto de achar que era apenas um reflexo algo romântico do lado negro de artista. Era uma escuridão calculada, talvez sendo que o desejo de manter todos fora e longe fosse um resultado da escuridão do pintor, cujo o nível era desconhecido, talvez até a ele próprio. A sala de entrada e de estar era composta unicamente por um sofá de quatro lugares, largo, podre de velho, de um tecido que em tempos havia sido vermelho e agora era uma mistura peculiar de vermelho escuro, preto, manchas castanhas e tinta. Havia variadas poltronas, sabe-se lá de onde e de que século, todas antigas, e arranjadas ao Deus de ara na sala, enorme e pintada de escuro. De decoração tinha meia dúzia de quadros, seus e de outros, nas paredes, e quadros, uma panóplia de quadros encostados por todo lado, por entre livros, e caixas, um leitor de vinil, uma televisão enorme, e um Xbox. Já nem os ermitas dispensam as novas tecnologias, ao que parecia.
Era uma casa algures em Lisboa, na parte velha e pouco segura. Toda a casa era antiga, a cair de podre, daquelas casas peculiares, agora divididas em apartamentos. Mas toda a casa era sua, herança de família ou sabe-se lá como, ainda que usa-se apenas o ultimo andar. Dos cinco andares, sem elevador, com as escadas em péssima condição, com pouco ou nenhuma luz em certos lugares, com as paredes a ruirem, a tinta a descolar-se e todo o ambiente sinistro de plantas a morrer e de portas trancadas a chave e quartos vazios, parecia que o dono da casa estava a fazer o seu melhor para desencorajar visitantes.
- Entendemos a sua posição, mas digamos que...
A voz do homem era entediante. Que tédio, oh que tédio. Bebendo o seu café, observava a boca, uniforme e fina, do dona da galeria, e sentia-se a deixar escorrer o mau estar e falta de paciência para com o tópico. Sentiu algo dentro do bolso vibrar. Sem pedir licença ou expressar alguma cordialidade formal, tirou o pequeno, gasto e feio telemóvel do bolso, e leu MÃE no ecran. Rangendo os dentes, rejeitou a chamada. Ainda não tinha ido as compras, e não lhe apetecia ter que se explicar aquela mulher e sessenta anos, louca e histérica, mais viva do que ele alguma vez fora.
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