"Morreu a minha netinha, de dez anos, sem ar."
Sem ar, dizes tu? Morreu como? Asfixiada nesta pobreza de espírito, sem eira nem beira, sem suporte nem... nada? Sento-me, cansada, os olhos a pesarem-me na cara, enquanto sinto o leve balanço da carruagem, que me leva a um estado de não sono, mas de profundo cansaço. Seria mais fácil morrer, deixar me ir, sem preocupações nem nervosismos. Simplesmente... dormir. Mas depois acordo, e olho para a senhora ao meu lado. Sorri-me, deseja me saúde. Como é que se perde alguém assim e se deseja saúde a desconhecidos no metro? Não sei, as vezes pondero se alguém lá em cima não me manda estas piadas de mau gosto, só para me testar a paciência.
Mas isso seria presunção e arrogância que alguém lá em cima quer saber de mim.
Então, acompanho o seu passo parado, enquanto ela me fala. Sorrio-lhe, mal ouço o que diz, fala baixo e para dentro, mas que mal tem sorrir-lhe? Olha-me, toca-me no ombro. O gesto não me assusta nem intimida, mas faz me sorrir ainda mais. As vezes, são raras, engraço com estes toques. Não são românticos ou sexuais, são humanos. Toques humanos. Da nossa, da minha pelo menos e da de alguns, de tocar noutra pessoa. Um choque. Uma colisão. Para nos relembrarmos que não morremos. Que ainda estamos aqui, presos na terra que o patrão lá em cima criou. Um espécie de post-it, para nos lembrar-mos que não, as pessoas a tua volta não são apenas nuvens, etereas e passageiras, como tantas vezes parecem. Entram e sai-em das carruagens, nunca mais as vejo. Não sei se os meus vizinhos são os mesmos todos os dias, vejo sempre mil e uma pessoas que nunca vi antes. Nunca as mesmas. Ou sou eu que vejo mal?
"Morreu a minha netinha, de dez anos, sem ar." diz me a senhora.
Fixo-a, e o mundo para. Que lhe vou dizer? Acabei de comentar que não foi ela que engordou, mas que foi o casaco que diminuiu. E agora digo-lhe o que? Uma frase bonita, tirada de uma cartão de papel das tabacarias, como "pelo menos está num sitio melhor"? Que raio de frase é essa?
A mim e a senhora que interessa que estejam num sitio melhor? Antes estarem cá, neste ninho nefasto e putrefacto, onde pudemos chorar ao seu ombro do que num sitio qualquer, a chorar pelas cinzas e carne podre e pelo seu ombro agora uma ideia abstracta e não uma realidade? Sou feita de carne! De vermelho, de tecido. Que me interessam os confortos escassos da alma, se é o corpo que me doí? Que me interessa?! De nada me servem ideias ocas, e de nada servem palavras vazias à senhora. Que lhe digo?
O momento passa, e sorri-me. Deseja me novamente saúde, e despacha a minha presença. Como quem diz que sabe que tenho outras coisas a fazer. Subo as escadas, um pouco atordoada, um pouco anestesiada pelo sono de estar acordada desde as quatro da manha. Não sei se pouco dormir é melhor que não dormir (sabes o que perdes). Mas olho para trás, e vejo-a, desajeitadamente subindo as escadas, com os seus óculos de avo de filme, redondos e com reflexos, o seu cabelo grisalho e fino, prateado e branco, encaracolado cuidadosamente em volta da sua cara, o seu casaco, demasiado pequeno, de cabedal preto, e sinto-me desfalecer. Vai para casa, para quem? Que casa? Pergunto-me se vive sozinha, se vive numa casa fria. Se mesmo que não viva sozinha, se se sente sozinha. O vómito enche-me a traqueia, e desvio os olhos no momento em que ela retorna a olhar para mim, com um sorriso curto de despedida e continuo a andar. Subo as escadas a correr, a fugir. A fugir daquela ideia, daquela mulher, velha, a morrer por dentro e por fora. Fujo do medo, do terror, do horrível da sua realidade. Mas eu posso fugir, ela não.
Será que se sente sozinha? Tremo. Chego a casa, deito-me mas não consigo dormir. Olhando o céu, penso. Que ideia de testes tens tu, ó Deus? Tiras e dás. Como viver sem aceitar que o que tu tiras assim tem que ser, ou seria louca. Louca por viver num mundo sem nexo, de for ao acaso, de ocorrências rotativas, como um totoloto da desgraça. Vai e vem, e em quem calha? O meu estomogo não assenta, mexe-se com vómito, sinto a cabeça pesada, dormente e cansada mas não consigo dormir. Porque? Porque viver?
Tuesday, 12 January 2010
Saturday, 9 January 2010
Sem noticias de Deus - i
Sentaram-se, pacientemente. Não lhes interessava o que estava a sua volta, nem a casa, nem os sofás, nem as paredes, nem a cor da tinta, nem o cheiro do ambientador que pouco ou nada disfarçava o pesado e ligeiramente nauseabundo cheiro a tinta velha e não usada, vinda do canto da casa, da suposta sala criativa. Não era bem uma sala criativa, porque a sala em si de criativa não tinha nada (que mania de atribuir qualidade a coisas inanimadas, sinceramente) mas era lá que ele se sentava e gastava horas, pacientemente atirando para o infinito nada as suas preciosas horas do dia. Podia dizer-se que ele não tinha problemas quando pensava que hora a hora, minuto a minuto, ele gastava os seus anos de vida, já a começarem a ser uns quantos (mais do que uma mão cheia, se quiserem uma forma de expressão, e neste caso seria mais do que todos os dedos que ele têm no corpo e não, ele não é disforme) e que quando pensa que os melhores anos da sua vida, pelo menos da vida de adulto, estão a ser passados quase barricado dentro de um apartamento esquecido no canto da cidade, ele não sente nada, apenas alivio de que se pode esconder do mundo, e de tudo, apenas saindo para fazer compras. Ainda nem computador tinha, o telefone começou a tocar demasiadas vezes, e pouco lhe interessava o método de mandar vir a comida a casa. Gostava de sair, ir ao supermercado no fundo da rua. Era um dos grandes, dos cheios. Ele aprendera a saber instintivamente a que horas estaria mais vazio, e a visita-lo. Ia de noite, quando apenas os estranhos saiam de casa.
Por volta da meia-noite, parecia que era a hora em que todas as pessoas que não queriam ser vistas iam as compras, porque por muito estranho que pareça que certas pessoas tenham comida em casa visto que nunca saem e nunca ninguém as vai levar a casa, esta não lá aparece por obra e graça do Espírito Santo, visto que este não existe. E se existisse, não lhe parece que estivesse muito preocupado com os seus hábitos alimentares. Lançando um olhar rápido ao casal, mas não casal romântico, na sala, deixou escapar um suspiro enquanto preparada os cafés. Tinha daquelas máquinas novas, bonitas e práticas. Excessivamente caras para um porcaria que expelia café, mas enfim, quem muito pode e pouco quer têm direito a certos luxos. Olhando em volta, o que restava da sua moralidade social sentiu um aperto, deixando-o indisposto. Não recebia visitas a algum tempo, e as que recebia eram amigos, ou pessoas, que conhecia a muito tempo. Por qualquer razão o facto de as conhecer de tal forma libertava-o das convenções sociais de arrumação e limpeza. Mas com os desconhecidos na sua sala, nojenta e que não via um aspirador desde que tinha sido comprada por ele, sentiu-se algo inútil. Desajeitadamente, levou os três cafés para a sala, sentando-se na sua poltrona. Observou as pessoas a sua frente.
A mulher não era bonita nem feia, nem atraente nem desinteressante. Tinha aquele ar de quem nunca nos lembramos do nome, ainda que a ou o vejamos todos os dias, durante anos. Olhos claros, cabelo soltos, uniformes e bem arranjados, sem qualquer traço de estilo ou um interesse afincado. Era arrumação simples e pura, não com o objectivo de se por bonita. Devia estar a sentir-se completamente descolada e enjoada com a sua casa, pensou ele, num misto de divertimento infantil e de culpa, leve mas existente. Tossiu, em jeito de começo. Sabia perfeitamente o que queriam, e eles sabiam perfeitamente que não o iam ter. Não vendia, não dava, nem emprestava nada do que fazia, nem para coisa nenhuma, nem para salvar os meninos de África. Pouco lhe interessava que chorassem, que lhe ameaçassem cortar o futuro, que lhe roubavam os quadros, que lhe tiravam a casa, que lhe matavam o gato, que o raptavam, que lhe envenenavam a água.
- Já lhes disse, umas boas mil vezes, que não vendo, diz ele, de forma agradável. Já está tão habituado a esta conversa que desistiu de ser rude e desagradável. Parecia que quando mais lhes batia, mais eles gostavam dele. Podia ser que se fosse querido e simpático que o rotulassem como bipolar e o deixassem em paz, de uma vez por todas, escapa-me o porque da insistência.
Mas as vezes a vontade de ser ruim escapa por entre as garras da moral.
O homem sem nome ou significado, tossiu por sua vez, e olhou em volta. Era, sem duvida, tudo que lhe tinham dito. Uma casa espaçosa, mas claustrofóbica, devido ao ambiente escuro e pouco iluminação. O por de sol de Lisboa, que tanto iluminava a cidade, no seu lusco-fusco resplandecente, era unicamente representado num dos vários quadros encostados a parede, como lixo velho, mas não entrava pela janela, naquela tarde de terça-feira. Olhando em volta, questionava-se como é que o homem a sua frente não saia de casa, em pânico e a dar em louco (se já não o era) de tanta escuridão. Mas não era calmo nem ingénuo ao ponto de achar que era apenas um reflexo algo romântico do lado negro de artista. Era uma escuridão calculada, talvez sendo que o desejo de manter todos fora e longe fosse um resultado da escuridão do pintor, cujo o nível era desconhecido, talvez até a ele próprio. A sala de entrada e de estar era composta unicamente por um sofá de quatro lugares, largo, podre de velho, de um tecido que em tempos havia sido vermelho e agora era uma mistura peculiar de vermelho escuro, preto, manchas castanhas e tinta. Havia variadas poltronas, sabe-se lá de onde e de que século, todas antigas, e arranjadas ao Deus de ara na sala, enorme e pintada de escuro. De decoração tinha meia dúzia de quadros, seus e de outros, nas paredes, e quadros, uma panóplia de quadros encostados por todo lado, por entre livros, e caixas, um leitor de vinil, uma televisão enorme, e um Xbox. Já nem os ermitas dispensam as novas tecnologias, ao que parecia.
Era uma casa algures em Lisboa, na parte velha e pouco segura. Toda a casa era antiga, a cair de podre, daquelas casas peculiares, agora divididas em apartamentos. Mas toda a casa era sua, herança de família ou sabe-se lá como, ainda que usa-se apenas o ultimo andar. Dos cinco andares, sem elevador, com as escadas em péssima condição, com pouco ou nenhuma luz em certos lugares, com as paredes a ruirem, a tinta a descolar-se e todo o ambiente sinistro de plantas a morrer e de portas trancadas a chave e quartos vazios, parecia que o dono da casa estava a fazer o seu melhor para desencorajar visitantes.
- Entendemos a sua posição, mas digamos que...
A voz do homem era entediante. Que tédio, oh que tédio. Bebendo o seu café, observava a boca, uniforme e fina, do dona da galeria, e sentia-se a deixar escorrer o mau estar e falta de paciência para com o tópico. Sentiu algo dentro do bolso vibrar. Sem pedir licença ou expressar alguma cordialidade formal, tirou o pequeno, gasto e feio telemóvel do bolso, e leu MÃE no ecran. Rangendo os dentes, rejeitou a chamada. Ainda não tinha ido as compras, e não lhe apetecia ter que se explicar aquela mulher e sessenta anos, louca e histérica, mais viva do que ele alguma vez fora.
Por volta da meia-noite, parecia que era a hora em que todas as pessoas que não queriam ser vistas iam as compras, porque por muito estranho que pareça que certas pessoas tenham comida em casa visto que nunca saem e nunca ninguém as vai levar a casa, esta não lá aparece por obra e graça do Espírito Santo, visto que este não existe. E se existisse, não lhe parece que estivesse muito preocupado com os seus hábitos alimentares. Lançando um olhar rápido ao casal, mas não casal romântico, na sala, deixou escapar um suspiro enquanto preparada os cafés. Tinha daquelas máquinas novas, bonitas e práticas. Excessivamente caras para um porcaria que expelia café, mas enfim, quem muito pode e pouco quer têm direito a certos luxos. Olhando em volta, o que restava da sua moralidade social sentiu um aperto, deixando-o indisposto. Não recebia visitas a algum tempo, e as que recebia eram amigos, ou pessoas, que conhecia a muito tempo. Por qualquer razão o facto de as conhecer de tal forma libertava-o das convenções sociais de arrumação e limpeza. Mas com os desconhecidos na sua sala, nojenta e que não via um aspirador desde que tinha sido comprada por ele, sentiu-se algo inútil. Desajeitadamente, levou os três cafés para a sala, sentando-se na sua poltrona. Observou as pessoas a sua frente.
A mulher não era bonita nem feia, nem atraente nem desinteressante. Tinha aquele ar de quem nunca nos lembramos do nome, ainda que a ou o vejamos todos os dias, durante anos. Olhos claros, cabelo soltos, uniformes e bem arranjados, sem qualquer traço de estilo ou um interesse afincado. Era arrumação simples e pura, não com o objectivo de se por bonita. Devia estar a sentir-se completamente descolada e enjoada com a sua casa, pensou ele, num misto de divertimento infantil e de culpa, leve mas existente. Tossiu, em jeito de começo. Sabia perfeitamente o que queriam, e eles sabiam perfeitamente que não o iam ter. Não vendia, não dava, nem emprestava nada do que fazia, nem para coisa nenhuma, nem para salvar os meninos de África. Pouco lhe interessava que chorassem, que lhe ameaçassem cortar o futuro, que lhe roubavam os quadros, que lhe tiravam a casa, que lhe matavam o gato, que o raptavam, que lhe envenenavam a água.
- Já lhes disse, umas boas mil vezes, que não vendo, diz ele, de forma agradável. Já está tão habituado a esta conversa que desistiu de ser rude e desagradável. Parecia que quando mais lhes batia, mais eles gostavam dele. Podia ser que se fosse querido e simpático que o rotulassem como bipolar e o deixassem em paz, de uma vez por todas, escapa-me o porque da insistência.
Mas as vezes a vontade de ser ruim escapa por entre as garras da moral.
O homem sem nome ou significado, tossiu por sua vez, e olhou em volta. Era, sem duvida, tudo que lhe tinham dito. Uma casa espaçosa, mas claustrofóbica, devido ao ambiente escuro e pouco iluminação. O por de sol de Lisboa, que tanto iluminava a cidade, no seu lusco-fusco resplandecente, era unicamente representado num dos vários quadros encostados a parede, como lixo velho, mas não entrava pela janela, naquela tarde de terça-feira. Olhando em volta, questionava-se como é que o homem a sua frente não saia de casa, em pânico e a dar em louco (se já não o era) de tanta escuridão. Mas não era calmo nem ingénuo ao ponto de achar que era apenas um reflexo algo romântico do lado negro de artista. Era uma escuridão calculada, talvez sendo que o desejo de manter todos fora e longe fosse um resultado da escuridão do pintor, cujo o nível era desconhecido, talvez até a ele próprio. A sala de entrada e de estar era composta unicamente por um sofá de quatro lugares, largo, podre de velho, de um tecido que em tempos havia sido vermelho e agora era uma mistura peculiar de vermelho escuro, preto, manchas castanhas e tinta. Havia variadas poltronas, sabe-se lá de onde e de que século, todas antigas, e arranjadas ao Deus de ara na sala, enorme e pintada de escuro. De decoração tinha meia dúzia de quadros, seus e de outros, nas paredes, e quadros, uma panóplia de quadros encostados por todo lado, por entre livros, e caixas, um leitor de vinil, uma televisão enorme, e um Xbox. Já nem os ermitas dispensam as novas tecnologias, ao que parecia.
Era uma casa algures em Lisboa, na parte velha e pouco segura. Toda a casa era antiga, a cair de podre, daquelas casas peculiares, agora divididas em apartamentos. Mas toda a casa era sua, herança de família ou sabe-se lá como, ainda que usa-se apenas o ultimo andar. Dos cinco andares, sem elevador, com as escadas em péssima condição, com pouco ou nenhuma luz em certos lugares, com as paredes a ruirem, a tinta a descolar-se e todo o ambiente sinistro de plantas a morrer e de portas trancadas a chave e quartos vazios, parecia que o dono da casa estava a fazer o seu melhor para desencorajar visitantes.
- Entendemos a sua posição, mas digamos que...
A voz do homem era entediante. Que tédio, oh que tédio. Bebendo o seu café, observava a boca, uniforme e fina, do dona da galeria, e sentia-se a deixar escorrer o mau estar e falta de paciência para com o tópico. Sentiu algo dentro do bolso vibrar. Sem pedir licença ou expressar alguma cordialidade formal, tirou o pequeno, gasto e feio telemóvel do bolso, e leu MÃE no ecran. Rangendo os dentes, rejeitou a chamada. Ainda não tinha ido as compras, e não lhe apetecia ter que se explicar aquela mulher e sessenta anos, louca e histérica, mais viva do que ele alguma vez fora.
Thursday, 7 January 2010
Não me olho ao espelho.
Sinto que caminhei quilómetros, milhares deles. Já não sinto aliás, mas dizem-me que sim. A mente está cansada e o corpo manifesta desgasto.
Paranóia. Não me olho ao espelho.
Apercebo-me que estou no ponto de partida. Onde ? Dizem-me que sim. Ponderei a hipótese de já ter terminado, ter dado uma volta imperfeitamente perfeita. Dizem-me que não.
A verdade assusta-me, essa cabra insensível, que me esfrega na cara, todos os dias, que ainda não saí do mesmo sítio. Observo a minha sombra. Percorre um circuito fechado que me rodeia e limita. Vejo-a com um sorriso trocista. Perturba-me. Não me olho ao espelho.
Ouço a mesma música repetidamente, incansavelmente, não porque a ame. Mas dizem-me que sim.
Noite. Na presença dessa exímia e sábia senhora, os meus pensamentos atormentam-me, fujo, para não chegar à conclusão de que sou miserável. Dizem-me que sim. Não me olho ao espelho.
Desejei que o tempo voltasse atrás, porém este não cedeu ao meu capricho. Parou. Dizem-me que não. Acordei de um sonho inconstante, com períodos de extrema lucidez e períodos de incessante angústia. Dizem-me que não. A verdade é que não durmo.
Dizem-me que sim.
Saí de um carrossel no sítio errado. Não, impossível. Só anda às voltas. Talvez não. Dizem-me que sim.
A incoerência da minha mente tem vindo a aumentar. Ninguém sabe. Tudo rodopia. Dizem-me que não. Vomito.
As caras são diferentes, desfocadas. Neste pedaço de cimento sou uma estranha. Dizem-me que sim.
Paranóia. Não me olho ao espelho.
Apercebo-me que estou no ponto de partida. Onde ? Dizem-me que sim. Ponderei a hipótese de já ter terminado, ter dado uma volta imperfeitamente perfeita. Dizem-me que não.
A verdade assusta-me, essa cabra insensível, que me esfrega na cara, todos os dias, que ainda não saí do mesmo sítio. Observo a minha sombra. Percorre um circuito fechado que me rodeia e limita. Vejo-a com um sorriso trocista. Perturba-me. Não me olho ao espelho.
Ouço a mesma música repetidamente, incansavelmente, não porque a ame. Mas dizem-me que sim.
Noite. Na presença dessa exímia e sábia senhora, os meus pensamentos atormentam-me, fujo, para não chegar à conclusão de que sou miserável. Dizem-me que sim. Não me olho ao espelho.
Desejei que o tempo voltasse atrás, porém este não cedeu ao meu capricho. Parou. Dizem-me que não. Acordei de um sonho inconstante, com períodos de extrema lucidez e períodos de incessante angústia. Dizem-me que não. A verdade é que não durmo.
Dizem-me que sim.
Saí de um carrossel no sítio errado. Não, impossível. Só anda às voltas. Talvez não. Dizem-me que sim.
A incoerência da minha mente tem vindo a aumentar. Ninguém sabe. Tudo rodopia. Dizem-me que não. Vomito.
As caras são diferentes, desfocadas. Neste pedaço de cimento sou uma estranha. Dizem-me que sim.
A criança revolta-se.
A criança revolta-se. Borboletas no estômago ?!
Mas quem é que inventou isso? É tudo menos borboletas no estômago !
Porque é que ninguém a avisou?
Porque é que ninguém lhe disse que seria algo a corroer-lhe o peito?
Quais borboletas qual quê ?!
Mais 10 000 abelhas a esvaziarem-lhe os pulmões, como se o seu oxigénio de pólen se tratasse.
Um poço mental sem fundo.
Borboletas ?! Pfff..
Mas quem é que inventou isso? É tudo menos borboletas no estômago !
Porque é que ninguém a avisou?
Porque é que ninguém lhe disse que seria algo a corroer-lhe o peito?
Quais borboletas qual quê ?!
Mais 10 000 abelhas a esvaziarem-lhe os pulmões, como se o seu oxigénio de pólen se tratasse.
Um poço mental sem fundo.
Borboletas ?! Pfff..
Porque é que ninguém a avisou ?
Não me sais da cabeça.
Não sais, não te mexes. Sempre nesse teu lugar, quente e pegajoso, sempre ai. Sentas-te confortavelmente e observas-me, todo o dia, a toda a hora, constantemente. A tua precensa, silenciosa e quase como Deus, omnipresente, incomoda-me. Engulo a seco, e pondero, sentada eu própria, nas cadeiras da cidade. Penso em falar, dizer qualquer coisa. Sinais de vida quaisquer. Não mensagens típicas da época, não tenho paciência para formalidades, já me devias conhecer melhor. Mas, enfim, eu conheço-te a ti. E sei que vives da imagem de normalidade que fomentas. Fomentas essa ideia de formalidade estática, com os teus maneirismos calculados e previstos. Com manias da perfeição. Dobras tudo bem dobrado, arrumas tudo sempre no sitio, dizes sempre as coisas certas. Não as melhores, as com mais significado, apenas as mais formais, as mais típicas. O mais genérico sem ser demasiado genérico, ou seja, as mais falsas das palavras humanitárias e carinhosas. Não! Já te disse que não te quero assim. Não te quero com a formalidade que tanto me irrita. Não te quero de forma alguma, mas não consigo não te querer. Dás me eternas dores de cabeça.
Podia falar. Podia. Podia mas não quero. Não quero porque não tenho que te dizer. Não tenho que te dizer que não seja formal ou que não seja incómodo.
Não sais, não te mexes. Sempre nesse teu lugar, quente e pegajoso, sempre ai. Sentas-te confortavelmente e observas-me, todo o dia, a toda a hora, constantemente. A tua precensa, silenciosa e quase como Deus, omnipresente, incomoda-me. Engulo a seco, e pondero, sentada eu própria, nas cadeiras da cidade. Penso em falar, dizer qualquer coisa. Sinais de vida quaisquer. Não mensagens típicas da época, não tenho paciência para formalidades, já me devias conhecer melhor. Mas, enfim, eu conheço-te a ti. E sei que vives da imagem de normalidade que fomentas. Fomentas essa ideia de formalidade estática, com os teus maneirismos calculados e previstos. Com manias da perfeição. Dobras tudo bem dobrado, arrumas tudo sempre no sitio, dizes sempre as coisas certas. Não as melhores, as com mais significado, apenas as mais formais, as mais típicas. O mais genérico sem ser demasiado genérico, ou seja, as mais falsas das palavras humanitárias e carinhosas. Não! Já te disse que não te quero assim. Não te quero com a formalidade que tanto me irrita. Não te quero de forma alguma, mas não consigo não te querer. Dás me eternas dores de cabeça.
Podia falar. Podia. Podia mas não quero. Não quero porque não tenho que te dizer. Não tenho que te dizer que não seja formal ou que não seja incómodo.
"I was sick of expecting answers, so I grabbed my chance and did what I thought was right. But things didn't go the way they were supposed to, and I was advised to wait for things, that would come with time. So I did. I closed my eyes and waited patiently...and waited,and waited,and waited,and waited...and I kept on waiting until I decided to do things my way...and of course I screwed everything but at least I didn't feel so useless, but then again, is it better to do something, even if it goes wrong, then do nothing I wait in doubt for something that may not come? Now, I'm more alone then before, but I guess I have less doubts then before, not that the truly important questions were answer, but only the more shallow ones. And now here I am...just waiting for destiny to knock on my door, or maybe I'll bump into it...or I'll just bump into something and mistake it for something else and get really frustrated and -"
"Hum...what would you like to drink?" Asked the waitress, as I stared blankly at the napkin I was talking to for over an hour. It's not like there was anyone else to talk to, and the salt was already bored with me.
-- 2005
"Hum...what would you like to drink?" Asked the waitress, as I stared blankly at the napkin I was talking to for over an hour. It's not like there was anyone else to talk to, and the salt was already bored with me.
-- 2005
It happened
It was a day like all the others, just another day, when it happened. Yes, it happened. The girl was stranded in her own mind, like always, when it happened.
What happened?
In a plain movement of reaching something the boy held the girl's hand. He held it for merely 2 seconds. Those same precise and real 2 seconds, felt like an eternity for whom whose hand was being held.- the girl - In a split second, she felt the unknown eternity in a touch. Poor, unwise girl, remembers nothing but the touch. She saw the boy's mouth moving in a way of producing sounds however she did not listen. Why should her? It was irrelevant. He could have not held her hand but he did.
His hand was neither cold or warm, it didn't matter anyway. It happened, the perfect touch. The simple touch of two naked hands, which so often and commonly occurs.
It happened, and then she knew. Yes, the little girl just knew.
She knew she had to have him. No, she knew she would have him.
When ? Who cares ?! The when seemed unimportant when she knew it would happen.
- Silly, uh?
She had already touched that boy before. A kiss, a hug, a gentle bump, however it wasn't it. And those peculiar 2 seconds were it. It happened, and now she knows. How? Once again, unimportant..
Stupid, uh?
It happened.
What happened?
- To the eyes of others, nothing.
- To the girl, it happened.
In a plain movement of reaching something the boy held the girl's hand. He held it for merely 2 seconds. Those same precise and real 2 seconds, felt like an eternity for whom whose hand was being held.- the girl - In a split second, she felt the unknown eternity in a touch. Poor, unwise girl, remembers nothing but the touch. She saw the boy's mouth moving in a way of producing sounds however she did not listen. Why should her? It was irrelevant. He could have not held her hand but he did.
His hand was neither cold or warm, it didn't matter anyway. It happened, the perfect touch. The simple touch of two naked hands, which so often and commonly occurs.
It happened, and then she knew. Yes, the little girl just knew.
She knew she had to have him. No, she knew she would have him.
When ? Who cares ?! The when seemed unimportant when she knew it would happen.
- Silly, uh?
She had already touched that boy before. A kiss, a hug, a gentle bump, however it wasn't it. And those peculiar 2 seconds were it. It happened, and now she knows. How? Once again, unimportant..
Stupid, uh?
It happened.
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